sexta-feira, 10 de setembro de 2010

A DECISÃO DE REFORMAR - by Hadys



Dizem que toda história tem três versões, a de um lado, a do outro, e a verdadeira. Aqui está a minha versão de uma reforma, não sei se é o jeito certo ou errado, mas é o meu jeito, descrito em um texto machista e preconceituoso (afinal, moto nova é apenas meio de transporte), pontuado por graxa e ferrugem. O texto é em sua maior parte genérico, mas subentende-se que estou falando de HDs pré Evo. Esse, que é o primeiro de alguns textos que pretendo escrever, irá tratar sobre a decisão de reformar, o próximo tratará da escolha da sucata (entenda-se moto a reformar) e por ai vai ... Nesses textos usarei sempre o termo “reforma”, pois creio ser mais abrangente e mais realista em nosso pais, nele estão implícitas algumas customizações de época e adaptações (não gambiarras), já o termo “restauração” considero coisa mais séria, purista e difícil de ser realizada, e creio que só deva ser usado em situações onde até os parafusos recebem o tratamento químico semelhante ao original de fábrica.

ATENÇÃO:

Se você pretende reformar uma moto antiga e guarda-la na cristaleira, esse texto não é para você. Não quero ajudar ninguém a tirar mais uma HD antiga de circulação, o objetivo aqui é exatamente o contrário, estimular as pessoas a trazerem essas belezinhas de volta a vida e usa-las. Uma HD antiga parada em uma coleção, sem óleo, sem bateria, é uma moto morta, e não importa sua crença ou religião, posso lhes afirmar por experiência própria que uma moto dessas rodando tem alma, só quem já pegou uma estrada sozinho com uma delas vai entender o que estou falando, se ela não quebrar, é um nirvana, quase uma aproximação com Deus.

Isto posto, vamos ao que interessa. Antes de iniciar a reforma, deve-se pensar nas questões listadas abaixo:

1)Sabe no que está se metendo? Está em pleno domínio das suas faculdades mentais?

Reformar uma moto antiga é como reformar um banheiro, só existem duas certezas: vai demorar mais que o previsto e vai custar mais caro que o orçamento inicial. Portanto, esteja preparado, não ache que tudo vai dar certo na primeira tentativa, na segunda, na terceira ... Uma reforma é algo como uma experiência bipolar, onde vão se intercalar curtos períodos de euforia com longos períodos de depressão, vide a curta alegria de receber aquela peça que estava esperando e reparar que não encaixa perfeitamente e vai demorar um tempão para instala-la. Tenha o telefone de um bom psiquiatra e esteja preparado para o uso de medicação controlada durante o processo de reforma, pois depois não será mais necessário, rodar com a velhinha será sua terapia.

2)Tem o apoio da sua família ?

Pode parecer estranho em um texto sobre reforma de moto, falar sobre família (tudo bem que já falei até de Deus), mas se sua esposa/filhos/pais não concordam com seu projeto, as chances de você vender a moto antes do final da reforma é muito grande, porém sempre há a possibilidade de envolve-los no projeto, leva-los a alguns encontros de antigas, pedir conselhos sobre a escolha do modelo, mobiliza-los na procura da moto etc... A sedução fica por sua conta. Agora se você é do tipo lone wolf ou não tem o hábito de dar satisfações a ninguém, o começo só depende de você. Tenha em mente uma coisa, mesmo que lhe apóiem, eles nunca vão entender como você pode pagar tão caro em uma moto velha e em outras tantas peças enferrujadas. Um tanque novo para a moto pode lhe custar o dobro do que você pagou, pois as vezes vem acompanhado de um sofá, uma cortina, um sapato feminino ...

3)Vai você mesmo fazer a reforma ou vai terceirizar ?

Aqui reside uma das decisões mais importantes para o sucesso da empreitada, se for entregar na mão de terceiros, você vai precisar de dinheiro, tempo e sorte (provavelmente de muito mais dinheiro e sorte do que se fizer sozinho e talvez, de mais tempo), nesse caso só tenho um conselho a dar, escolha com muito cuidado o profissional que irá cuidar da moto, como se estivesse procurando por um cirurgião cardíaco, com certeza você irá querer o melhor e não o mais barato. O fato do indivíduo ser um bom mecânico não significa que seja um bom restaurador. Ele terá tempo para se dedicar a sua moto? Interesse? Conhecimento? Capricho? Se seu caminho for esse, boa sorte! Mas se vai se arriscar a fazer a reforma sozinho, vamos continuar.

4)Tem capital ?

Se você não tem nem uma sobra mensal de numerário, desista ! Não é uma brincadeira muito barata mas também não precisa ser rico, não precisa ter muita sobra, mas se já está endividado, vá primeiro resolver sua vida financeira, não gaste dinheiro e energia em algo que tem o potencial de lhe afundar mais. Vai acabar gastando um dinheiro que não tem e vendendo a moto na metade do processo por bem menos que investiu, fora a decepção pessoal. Existe ainda o risco de por economia fazer uma reforma porca e destruir o que poderia ser uma boa moto. Aqui uma dica, se você deve satisfações a esposa/filhos/pais, o canhoto do talão de cheque pode ser seu inimigo, cuidado com os valores anotados nele. Como justificar a uma esposa que gosta de bolsas, que um farol original pode custar tão caro ?

5)Tem conhecimento ?

Se não tem muita experiência com mecânica, a estrada será mais pedregosa porém não impossível. Agora, se não tem qualquer intimidade com ferramentas, não sabe a diferença de chave de boca e alicate de bico, desaconselho a empreitada. Uma sugestão, que usei comigo, é a de tentar uma pequena reforma antes de iniciar o “projeto da vida”, tente reformar uma bicicleta antiga que você já tenha, um ciclomotor, um mini bugy. Antes de começar com as HDs, reformei uma mini Panther dobrável 1982 que ganhei toda enferrujada de um tio e que depois de pronta eu nunca coloquei para funcionar. Valeu como experiência, uma pequena amostra do que viria pela frente. Apenas como ilustração, minha primeira reforma se deu há mais de 15 anos, comprei um Jeep Wyllis 1960 que em seis meses ficou uns cinco quebrado, um dia desmontei-o na porta de casa e demorei 10 meses remontando-o na rua, funciona até hoje!

6)Tem tempo ?

O tempo que vai demorar a reforma é diretamente proporcional ao tempo que tem para dedicar a ela e a velocidade do aporte financeiro, cuidado para não ocupar tempo que devia ser destinados a família e aos amigos, senão rapidamente perderá aquele apoio que foi conquistado a duras penas lá em cima. Vou acrescentar a paciência nesse tópico, se não a tem, desista. Nunca estipulo prazo para terminar as reformas, vou fazendo, um dia acaba. Precisa de um saco gigante para uma reforma bem feita, se for muito ansioso, a chance de fazer besteira é enorme, procure ajuda profissional e medique-se antes de continuar a ler o texto.

7)Tem espaço para a reforma ?

Não precisa ser um grande espaço, mas é importante que seja organizado. Se mora em apartamento e vai reformar na garagem, cheque com o famigerado síndico se não há impecilho para isso. A varanda do apartamento, havendo consentimento da esposa/filhos/pais, pode ser um ponto de partida, lembre-se apenas que não vai conseguir descer uma moto montada pelo elevador. Um cavalete com rodinhas foi um dos melhores investimentos que já fiz, posso mudar a moto de posição a qualquer momento e em qualquer estágio da reforma, otimizando o espaço. Um banquinho baixo que lhe permita trabalhar confortavelmente na moto sobre o cavalete, é artigo de primeira necessidade, após a primeira reforma, ainda sem o referido banco, o meu joelho nunca mais foi o mesmo. Até um balde com a boca para baixo pode servir se você não for obeso.

8)Tem as ferramentas ?

As HDs tem seus parafusos, porcas e roscas polegadas, diferente das japonesas que são métricas (em milímetro). Portanto vai precisar de chaves em polegadas, inclusive as Arlen, não tente usar chaves em milímetros, vai destruir a cabeça dos parafusos !! Vai precisar de um jogo de ferramentas padrão, uma morsa e algumas ferramentas especiais, como um saca embreagem, por exemplo. Uma chave de impacto e uma marreta serão de grande utilidade na desmontagem. Ferramenta nunca é demais, não precisam se top de linha, porém as de qualidade duvidosa, além de durarem menos, podem comprometer seu trabalho. Uma caixa ou quadro de ferramentas organizados são essenciais. Uma dica, tenha no mínimo um jogo de chaves combinadas ( boca/estrela ) e um jogo de catracas, o ideal é ter dois jogos de chave combinada, durante o trabalho você vai acabar descobrindo porque.

Próximo capítulo : como escolher a sucata, digo, moto !

Como curiosidade, a moto da foto acima é a flathead 1946 azul, em uma das fases da sua sofrida existência.

Hadys

www.jurassicmachines.com.br

6 comentários:

kahuna disse...

Pô, cara!!!! Fiquei empolgadão.... Vou fazer!!!!!

Mais, por obséquio, pode me enviar o telefone de seu psiquiatra, pois o meu me abandonou na última tentativa.... :( :( :(

Pedrão disse...

Hadys, seu texto me trás boas lembranças... meu paizão levou 6 anos prá reformar um Mustang Hard Top 1969, e naquela época não tinha eBay. rs

Agora, as dicas com relação às trocas com a família estão impecáveis. Estarei atento aos próximos capítulos.

[]s, Pedrão

Amaral disse...

Bem vindo.

Bom ler você por aqui.

Lord of Motors disse...

Maravilha! Estou começando a achar que esse negocio aqui tá ficando sério. Irmão, continue contribuindo, esse pardieiro aqui muda de nível quando pessoas como você participam...

L.

Camata disse...

Mas essa eu tenho que aconpanhar! Quem sabe daqui umas décadas eu não entro nessa de restauração. Talvez até lá as evos injetadas sejam uma raridade perante os motores que estão por vir. Sei la neh.

Filho da estrada disse...

Caraca Hadys, há muito tempo atrás minha avó falava em caraminholas na cabeça. Hoje descobri parte do siginificado disso. Estou propenso a entrar nesse delírio! Acho que vou parar de ler rssss. Muito bom o texto. Parabéns!

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