quarta-feira, 15 de setembro de 2010

"The Ramcharges: fundo de quintal, mas com diploma", por Marco Antônio Oliveira

Não costumo repetir integralmente posts de outros blogs ou sites, mas de vez em quando abro uma exceção, quando considero a divulgação dos mesmos não só interessante, como também relevante, como no caso desta matéria que me foi enviada por um amigo.

Reescrever a matéria, ao invés de a reproduzir, não só seria trabalhoso, como também uma estupidez, visto que está muito bem escrita.

Enfim, segue a história dos Ramcharges, um grupo de funcionários da engenharia da Chrysler, que influenciou de maneira marcante a história das corridas de arrancada.


Detroit dragway, 1959, NHRA nationals. Aparece para a vistoria antes da competição um carro pra lá de estranho. Os vistoriadores e os outros competidores não conseguem disfarçar as risadas e as piadinhas; aquele cupê Plymouth 49 parecia mais uma daquelas camicletas fabricadas por caipiras de 15 anos em algum alambique ilegal no meio do mato, depois de vários goles de uísque caseiro de milho. Alto, escapamentos com cara de cornetas saindo pelos para-lamas recortados, admissão estranha com captador de ar mais alto que o teto... O carro parecia uma caricatura, uma irrelevância divertida e ridícula. Ninguém, mas ninguém mesmo, esperou nada dele.

Até que ligaram o motor. De acordo com membro da equipe: “Foi muito engraçado quando ligamos o carro pela primeira vez. Todo mundo parece que de repente ficou quieto, e olhou para o nosso lado. Em alguns segundos, tínhamos uma plateia. Ele tinha um som que era só dele...” Outro se lembra do som assim: “...como um DC-7 sem esteróides – bem profundo e grave. Nada soava como ele. Era alto como os dragsters”.

Na competição, o carro enfrentou alguns problemas, característicos de uma primeira aparição, e chegou apenas às semi-finais. Mas, em uma época em que “a masculinidade era medida pela velocidade final no quarto de milha” (como disse outro membro da equipe), o dia não foi perdido: o recorde de velocidade final na categoria ficou com eles, numa passagem de 13,37 segundos a 177 km/h. O carro começara ali uma longa carreira de vitórias e recordes no quarto de milha, até que a NHRA, associação regulamentadora das competições desse tipo nos EUA, finalmente proibiu sua participação, em 1961.


Os criadores daquela coisa horrível mas terrivelmente efetiva na verdade não tinham nada de caipiras. Nem muito menos o carro ficara feio por acidente. Na verdade, quem esteve naquela pista naquele dia,viu a estreia em competições do mais influente time de arrancada da história do esporte: Os Ramchargers.


A equipe era na verdade um clube criado por funcionários da engenharia da Chrysler, que usavam seu tempo livre e dinheiro para perseguir sua paixão. Na verdade, era mais que isso. Os engenheiros da Chrysler não se conformavam em ver as competições de arrancada totalmente dominada por Chevrolets e Fords, e queriam mostrar que sua companhia era tão capaz como as outras. O clube acabou por influenciar sobremaneira a forma destas competições, projetando carros de arrancada completos, atacando a tarefa como se fosse um projeto qualquer de produção normal. Seu sucesso acabou por despertar a companhia para este tipo de corrida, e tornou os Ramchargers a equipe semi-oficial do fabricante.

O semi-oficial com ênfase no semi aqui: os recursos e equipamentos, motores, carros, caminhão de apoio etc., eram da empresa, mas eles continuavam todos amadores, competindo, viajando e trabalhando nos carros no tempo livre. Não era incomum membros do time chegarem em casa depois da meia-noite de domingo, depois de viajar para uma competição em algum lugar, e ainda assim terem que bater ponto no prédio da engenharia na segunda as oito, onde teriam que continuar seu trabalho normal, projetando maçanetas para uma perua qualquer, ou coisa parecida. A equipe foi única no fato de que uma quantidade enorme de pessoas passou por ela, haja vista que tamanha dedicação não pode ser mantida para sempre, mas a equipe em si era maior que cada uma das pessoas, e se manteve sempre viva. Foi uma das únicas equipes da época em que o piloto era praticamente desconhecido, e o carro era reconhecido apenas como produto de um time. O carro dos Ramchargers.


Os Ramchargers tiveram tanto sucesso que regulamentos foram sucessivamente modificados para igualar o resto dos competidores e nivelar a competição, e influenciaram decisivamente a Chrysler. Naquele dia em 1959, em que estreava o Plymouth "Ram Rod", a Chrysler fabricava carros para senhores e senhoras, carros sem nenhum apelo à juventude e ao alto desempenho. Quando o time acabou em 1972, a Chrysler era a empresa dos Chargers, dos Road Runners, do Hemi 426. Se hoje existe um culto aos Mopars mundo afora, mesmo aqui em nosso trópico alegre, muito se deve ao trabalho apaixonado (e não remunerado) dessa turma de engenheiros.

Mas naquela tarde de 1959, nada ainda existia. Havia apenas uma turma de engenheiros testando suas teorias na prática, na pista de competição. E que teorias eram estas?

O primeiro carro dos Ramchargers, o "Ram Rod", apesar da aparência amadora, foi criado com método totalmente profissional. Primeiro, a categoria onde competiriam foi escolhida com base em onde causariam maior impacto nos Chevrolets: a C/ Altered, que especificava 8,6 libras de peso (3,4 kg) por polegada cúbica (16,387 cm³) de cilindrada, e onde, segundo os cálculos deles, se encontravam as maiores potências específicas. Os engenheiros, acostumados em planejar antes de executar, dividiram o clube em times de carroceria, suspensão, trem de força e chassi, e definiram parâmetros de projeto, antes de começar qualquer coisa.


O projeto começou com a escolha da carroceria, que deveria seguir as seguintes premissas:

- Um carro da Chrysler
- Baixo peso
- Centro de gravidade alto
- Entre-eixos curto

As duas últimas premissas era essenciais para o que planejavam os Ramchargers. Mais que alta potência, eles pretendiam melhorar muito a transmissão desta potência ao solo. Os engenheiros do time sabiam que a aderência dos pneus traseiros, e por conseqüência a eficiência da arrancada, é função do coeficiente de atrito e da força normal, ou perpendicular, sobre eles. Como a superfície da pista sempre varia, no caso do atrito só podia se especificar os pneus, mas quanto à força normal à área de contato com o solo, nossos amigos acreditavam que podiam fazer melhor. Usando um CG (cemtro de gravidade) e um motor altos, e curto entre-eixos, a transferência de peso na arrancada, por inércia, carregaria muito mais os pneus traseiros do que o resto dos competidores faziam então. O motor acabou a nada menos que 36 pol do solo (914 mm, quase um metro), medido do virabrequim. Fora isso, cuidado seria tomado com a suspensão traseira, para tentar manter os dois pneus com a mesma carga, cancelando a tendência de "levantar" a roda direita. Diagramas detalhados de lay-out básico foram criados, e cálculos extensos e completos foram realizados, como se pode ver abaixo.


A carroceria escolhida acabou sendo a de um Plymouth Business Coupe 1949, e após breve busca, era comprado um exemplar por quase nada. Jack McPhearson, um dos integrantes do clube, oferece a garagem de sua casa (literalmente no fundo do quintal!) e assim começa o trabalho. Inicialmente nenhum deles declarava seu envolvimento com o clube na empresa, com medo de represálias. Ser apaixonado por automóveis, por incrível que pareça, não era uma vantagem na Chrysler de 1959, a ponto de em uma avaliação de desempenho um dos Ramchargers receber o comentário negativo de que “gostava demais de carros”.

O motor usado obviamente foi um early-hemi de 354 polegadas cúbicas (5,8 litros). O motor foi conseguido de forma inusitada: um dos Ramchargers, Dan “The Nose” Mancini (todos os membros tinham aposto) conseguiu um acerto com um gerente de garantia da Dodge: ele mandaria três motores danificados para os engenheiros avaliarem, com um relatório. O pagamento por este trabalho seria ficar com um dos motores. O motor, originalmente de uma picape, foi cuidadosamente preparado por Tom Hoover, que se tornaria lendário na função.


Para o escapamento, Hoover havia lido um paper da SAE, a sociedade de engenheiros automobilísticos fundada em 1905, sobre os efeitos benéficos na potência das motocicletas monocilíndricas Norton de um escapamento com 48 pol de comprimento, e um "megafone" de sete polegadas no fim do tubo. Como cada cilindro da Norton era próximo da cilindrada unitária do Hemi, resolveu que oito deles seriam ideais para o Ram Rod. Confeccionou ele mesmo dois coletores assim. Na verdade, o comprimento acabou diferente, pois os engenheiros do grupo determinaram que o comprimento deveria ser ajustado para máxima potência a uma dada rotação, seguindo uma fórmula constante, que derivaram da leitura do documento da SAE. Em conjunto com o motor montado alto e recuado no carro, o escape resultante teve que passar por recortes em cada para-lama, gerando uma aparência realmente estranha.


Outra coisa estranha era a admissão. Os Ramchargers criaram o primeiro "tunnel ram", tipo de coletor de admissão em que os carburadores estão montados no topo de longos tubos. Como foi descoberto o efeito benéfico deste tipo de coletor é uma historinha que merece ser contada:

Parece que, durante o desenvolvimento de versões experimentais de alta potência do V-8 Hemi original (com injeção de combustível e oito borboletas bem próximas da admissão), a sala de dinamômetro ficava envolta em uma perigosa névoa de combustível, que passava de volta pelas borboletas em alta rotação. Os técnicos e engenheiros resolveram adicionar longos tubos na admissão, para "segurar" um pouco do combustível fujão, até que fosse consumido novamente. Para a surpresa deles, com os tubos instalados a potência subiu... Sem nenhum trabalho teórico prévio, a Chrysler tropeçou no famoso ram effect, ou efeito de aríete da coluna de ar.

Algum tempo depois, nossos amigos Ramchargers colocavam isso em prática: soldando alguns perfis de alumínio e usando tubos de borracha individuais para cada cilindro, o Ram Rod acabou com os seus dois carburadores quádruplos Carter montados mais altos que o teto! O comprimento dos dutos também foi calculado seguindo fórmulas que derivaram dos testes, para a mesma rotação de potência máxima determunada para o escape.


Dentro do carro, um toque genial: o conta-giros horizontal montado no teto era peça de uma velha bancada de dinamômetro da Chrysler desativada...


O resultado deste Hemi bem-feito em conjunto com transferência de peso enorme e um conjunto bem acertado foi avassalador. No ano seguinte, ganhou pintura nova e um novo nome (“The High and The Mighty”, ou Alto e Poderoso, título do famoso filme de 1954 que no Brasil se chamou "Um Fio de Esperança"), e continuou sua série de vitórias e recordes, o melhor sendo um incrível quatro de milha em 12,29 segundos, a nada menos que 189 km/h, no NHRA Winternationals de 1960. Foi sempre um ganhador até que a NHRA especificou uma altura máxima do virabrequim ao solo em 24 pol (609 mm), obsoletando imediatamente o velho carro. Para um engenheiro de competição, ver uma nova regra sendo criada para tirar você da competição é a prova irrefutável de que você realmente teve sucesso.


Os Ramchargers, sem saber o valor histórico que seu carro teria anos depois, venderam-no para financiar o próximo, continuaram sua série de sucessos, e o velho Ram Rod desapareceu, completamente esquecido. Em 2008, 49 anos depois de ser criado, a revista Hot Rod declarava o carro um dos 100 mais influentes hot rods de todos os tempos.

Ano passado, um dos muitos integrantes do clube, Dave Rockwell, publicou um livro contando toda a história do time, chamado “We were the Ramchargers” (“Nós éramos os Ramchargers”, abaixo). O livro está disponível a venda na SAE, e dele são as fotos que ilustram este post, bem como a maioria dos fatos expostos aqui. Para quem domina a língua inglesa, é altamente recomendável comprar, ler e guardar com carinho, sendo um Mopar-man ou não.


Um livro emocionante que conta uma épica história de entusiasmo, vocação e de dedicação, que mudou uma empresa e o nosso mundo. Ou você não acha que o mundo seria bem mais triste se o 426 Hemi nunca tivesse existido?

Tom “Chrome” Hoover, lendário “homem de motor” dos Ramchargers, e peça fundamental no desenvolvimento do 426 Hemi, resume perfeitamente o que foi o grupo, no final do livro:

“Vários fatores nos levaram a conseguir tanta coisa com menos dinheiro que os outros times. Mas o principal é o fato de que a gente adorava aquilo. O pessoal tinha responsabilidade, eram interessados e confiáveis, porque todos adoravam fazer parte daquilo. Cada um podia dar a sua contribuição. Com os Ramchargers, não havia distinção entre trabalho e a missão no clube. São os Ramchargers, não sou eu, ou Mancini, ou qualquer outro... São os caras! Todos tem a camiseta, todo mundo tem a mesma aparência, ninguém se sobressai. É lindo! Éramos mais do que qualquer um de nós sozinho. NÓS ÉRAMOS OS RAMCHARGERS!”


Autoria: Marco Antônio Oliviera
Fonte: AUTO entusiastas


3 comentários:

only 2 wheels disse...

Sensacional a matéria, muito boa mesmo .....

kahuna disse...

Gostei foi do "carrinho" da capa do livro..... :)

Fernando Alves - womvet disse...

Ótima matéria! Embora não seja tão apaixonado por carros como sou pelas motos, a história é realmente fascinante!

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