domingo, 27 de novembro de 2011

Fala, Caveira.




Era um hotelzinho no alto de uma colina. Um hotelzinho amarelo, desbotado, descascado. Um dia foi um hotel razoável. Mas acompanhou a decadência da cidade. E hoje era um desses hoteizinhos fuleiros. Do tipo que eu estava mais que acostumado.

Era tarde da noite. Na última parada pra abastecer, perto da entrada da cidadezinha decadente, tomei duas doses de rabo-de-galo. Enchi a garrafinha com mais uma meia dúzia de doses, e guardei no bolso da jaqueta. Aos poucos vim mamando a garrafinha. Pra esquentar.

Resultado: bêbado, de madrugada, chegando com a Shovel barulhenta no hotel decadente da cidade decadente.

Bêbado, com frio, esmurrando a porta do hotel.

Eu estava lá para um desses eventos de moto de cidadezinha do interior. Desses que as cidades decadentes realizam, numa tentativa vã de um novo prefeito de renovar o turismo da cidade.

O atendente finalmente me leva pro meu quarto. Fuleiro, pulguento, com cheiro de mofo. Do tipo que eu estava mais que acostumado.

Apaguei de jaqueta e tudo.

Acordei com a boca seca, fui lavar o rosto e beber água da pia. Gelada e suja. Barrenta, chegava ter cheiro.

“Você sabe onde fica o evento?”

O atendente do hotel não sabia.

Saí andando pela rua. A Shovel estava ali, impávido colosso, na frente do hotel. Dei bom dia pra ela, e saí atrás de uma padaria. Precisava comer alguma coisa. Os rabo de galo ainda estavam fazendo uma rinha perversa no meu estomago vazio.

Uma padoca. Um café e um pão na chapa. Uns cachaças me olhando com cara de curiosos, uma senhora desvia o caminho pra não passar perto de mim. Foda-se, já estou acostumado. “Se a senhora está com medo de mim de roupa, vai surtar se me ver nu.” pensei enquanto sentia o café descendo pela garganta e esquentando o estomago.

“Patrão, sabe onde fica o evento de moto?”

O cara da padaria não sabia.

Os cachaças não sabiam.

Intrigado, volto pra Shovel e pego o mapa. E o prospecto do evento.

“Ô, atendente. Como chama essa cidade?”

“Cudomundópolis” (ou algo semelhante).

Estava lá, no prospecto.

“Encontro Nacional de Motociclistas de Casadocaralhópolis" (ou algo semelhante).

Boa, Caveira.

Em algum ponto da viagem confundi a cidade. O evento ficava a mais ou menos 400km de onde eu estava.

Voltei pra padoca.

“Me vê uma dose desse Conhaque Dreher aí.”

Vamos matar de vez esses galos no estômago. Vai ser uma longa viagem de volta....


W.C.

3 comentários:

Renato disse...

:-))))

Se tivesse acertado a cidade não teria história prá contar, nem teria conhecido cudomundopolis e as estradinhas da região... ;-)

Camata disse...

GPS sux!

Maciel Boghi disse...

Putz, já passei por uma destas ! Ano 1995....Saimos daqui de Vitória e fomos pra Tiradentes... Chegamos na praça... naquela época o encontro rolava só ali.... Nada de motos...nada do Berg... Até que uma velhinha veio perguntar o que faziamos ali naquela data (24 de maio) já que o encontro de HD era no mes seguinte (24 de junho)e naquele dia só tinha o encontro da Igreja !
Bom, o jeito foi ir pra São Joao Del Rey perturbar o BERG, e voltar no mes seguinte pro encontro

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