segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Fernandinha GPS



Sempre fui chegado em uma tecnologia. Pra mim, a única coisa que não combina com tecnologia é Harley Davidson. Essa tem que ser antiga, carburada e vazar óleo. De resto, sempre gostei de umas modernidades. A única diferença é que a idade me roubou a curiosidade instintiva da juventude. Hoje, muitas vezes preciso recorrer ao manual. Ou então ao pai dos burros modernos, o Google. Se nenhum dos dois der jeito, eu ligo pro meu sobrinho. Esse com certeza resolve qualquer parada. E ainda me olha com aquela cara de "porra, tu me chamou aqui pra isso?".

Há umas semanas atrás, cai na estrada para encontrar os irmãos. Estava indo para um lugar que nunca havia ido. Resolvi testar o GPS do meu celular. Tenho um irmão que sempre usa essa porra. Diz que é a maior maravilha do mundo. Que ele chega rápido onde quiser, mesmo sem nunca ter ido. Não precisa perguntar nada pra ninguém. Tudo o que tem que fazer é seguir as indicações da parada.

Sei não. Tenho minhas restrições. De qualquer forma, acabei sendo convencido. Argumento infalível. Ele disse: "deixa o celular no bolso da jaqueta e coloca o fone, que uma gostosa vai guiando você". Quando ele falou na gostosa, foi tiro e queda. Precisei de uma aula do meu sobrinho para mexer naquele troço. Continuo sem entender porra nenhuma. Só lembro do essencial, ou seja, a escolha da gostosa. Eu tinha duas opções, Ana Maria ou Fernanda. Fiquei com a segunda.

Maior parte do caminho eu fui sozinho. Já rodei muito por aí. Poucas são as rodovias pelas quais nunca passei. Em um determinado ponto, parei no acostamento. Coloquei os fones e iniciei o GPS. Assim que voltei pra pista, uma sensual voz feminina me disse ao pé do ouvido:

"O limite de velocidade é de 80km/h."

Sensacional, pensei. Agora tenho uma mulher me controlando mesmo quando viajo sozinho. PQP...

Cogitei arrancar aquela merda. Preferi ver no que ia dar. Até porque, não sabia chegar no meu destino mesmo. Andei mais um pouquinho e novamente Fernanda sussurou: "O limite de velocidade é de 80km/h." Agora eu ranco essa porra. Fui caindo pro acostamento quando ela disparou: "Prepare-se para manter a esquerda a 800m."

Opa, pensei. E agora?

Tava chovendo um pouco. Eu tava com pressa. Liguei o foda-se. Vou aguentar essa piranha até lá. Pelo menos não erro o caminho e chego mais rápido, pensei. Logo depois ela emendou, "prepare-se para manter a esquerda a 300m". Andei mais um pouco e vi que havia uma bifurcação. "Mantenha a esquerda", ela disse. Hummm, interessante... Resolvi deixar a brincadeira rolar.

E lá foi minha doce Fernanda guiando meu caminho através do desconhecido. Fui me acostumando com sua voz. Já não achava mais ruim quando ela lembrava o limite de velocidade. Comecei a imaginar como seria Fernanda. Aquilo foi me dando um certo tesão... Mas nosso relacionamento durou pouco. Como disse em outra ocasião, eu só ando com o cabo enroscado. E aí comecei a ter problemas com Fernandinha. Ela dizia:

"Prepare-se para manter a esquerda a 800 metr... Prepare-se para manter a esquerd... Mantenha a esq... Recalculando rota..."

"Prepare-se para entrar a direita na Rua Zé das Couves a 800... Prepare-se para entrar a direita na Rua Zé das Cou... Entre a direita na Rua Zé d... Recalculando rota..."

E quando eu achei que não dava pra ficar pior...

"Recalculando rota. Entre a direita na Rua ... Recalculando rota. Prepare-se para manter a ... Recalculando rota."

Porra, que lerdeza dos infernos, PQP. Não tenho saco pra gente lerda. Nunca tive. Primeiro posto de gasolina, parei a bicuda. Tirei o celular do bolso da jaqueta e dei uma olhada no mapa do GPS. Mais meia dúzia de curvas e eu chegaria num retão. Retão esse do qual só sairia num retorno bem lá na frente e que me deixaria na cara do meu destino final.

Trepei na moto e fui embora. Na pressa, esqueci de tirar os fones de ouvido. Fernanda continuou falando comigo. Nisso, notei algo interessante. Quando a única coisa que você precisa fazer é se manter na principal, Fernanda nada fala. Ou seja, o silêncio significa algo como "keep going."

O foda de um GPS é que você se condiciona a ele. Por mais que se saiba o caminho, acaba-se esperando as instruções. E às vezes até confiando mais nelas. Sabe aquela história de colar na prova. Você sabia a resposta mas acaba errando. Mais ou menos isso.

Eu tinha xingado Fernanda por demais. Vocês sabem como são as mulheres. Não perdem a oportunidade de dar o troco. E com Fernanda não seria diferente. Lá estava eu no famigerado retão, aguardando instruções de quando pegar o retorno. Passaram 1, 2, 3 ... 7 retornos. Fernanda em silêncio. Alguns inclusive tinham placas que me pareciam indicativas do meu destino. Mas como ela nada disse, mantive o curso.

Até que passei por uma singela placa com os dizeres: "Limite de Municípios ..."

Parei no acostamento.

Peguei o celular.

Tinha passado 67 km de onde eu deveria estar. E aquela vadia não falou porra nenhuma.

A essa altura já era noite. Chovia pra caralho. Estava cansado e não fazia idéia de onde estava. Só sabia que estava a 67 km do meu destino final. Resolvi fazer à moda antiga. Desliguei o celular e calei Fernanda. Ah como seria bom se pudéssemos fazer isso com as mulheres de carne e osso.

Segui meus instintos. Quando ficava na dúvida parava e perguntava. Em qualquer esquina ou posto de gasolina achava meu caminho.

Finalmente cheguei, no melhor estilo E=MC² (estresse = molhado e cansado ao quadrado).

Tava rolando uma festa. Parecia boa. Um PP me levou até a sede, para pegar uma roupa emprestada. Saúde já não guenta virar a noite encharcado. De volta à festa tomei muitas e outras pra esquentar. Reencontrar os irmãos e botar o papo em dia. Não tem preço. Lá pelas tantas a mulherada foi ficando frenética. Festa regada, sabe como é né... Fiquei de olho numa morena. Ela retribuiu minha investida. Papo vai, papo vem, cheguei junto. O negócio começou a ficar quente. Muito quente. Tava vendo a hora que eu ia meter nela ali mesmo, no meio do bar. Sugeri que fossemos pra outro lugar. Ela aceitou imediatamente.

Dei aquela kickada na bicuda. Pegou de primeira. Raro. "Devo estar com sorte", pensei. Coloquei o capacete naquele rostinho safado. Já na minha garupa, antes de partir perguntei seu nome.

Ela disse: "Fernanda".

Eu disse: "Desce."

Nunca brochei tão rápido na minha vida. Desliguei a moto. Enquanto pegava meu capacete de volta disse: "Foi um prazer, mas tenho que ir, fica pra próxima." E sai falando sozinho: "Se fosse Ana Maria até encarava, mas Fernanda, vaisifudê, vai-si-fudê..." Meus irmãos ficaram se olhando sem entender absolutamente nada.

Catei um PP e voltei pra sede. Exausto que estava, fui dormir. Recostei minha cabeça num projeto de travesseiro que arrumei. Fechei os olhos. Não conseguia dormir. Uma voz martelava minha cabeça:

"O limite de velocidade é de 80km/h..."

GPS nunca mais.

Até.
Bob Tequila

6 comentários:

grbrum disse...

Sensacional BOB.. curto muito seus contos...

Camata disse...

As empresas de GPS deviam colocar uns nomes menos comuns nas vozes. Estragariam menos fodas.

Anônimo disse...

Porra Bob, era só falar pra mina: a partir de agora vc se chama Mariana!!! Tava resolvido.

[ ]x

Diesel.
PS: já usei essa merda no carro e pensei, caralho,minha mulher me azucrina direto, agora tem essa pentelha me dizendo pra onde ir... PQP

Lord Of Motors disse...

Assim como com a Regina Poltergeist, Jaqueline Tequila e Elisabeth Frigida, toda Fernanda agora vai ser conhecida como Fernandinha GPS...

Cadore disse...

Hahahaha ótima história! Fernandinha GPS!

Leroi disse...

KKKKKKKK, boa história.

Uma vez a porra de uma mulherzinha do GPS me fez perder 90 km. E ela ainda tinha sotaque de carioca. É um pé no saco.

Inté!

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