segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

O Aikidô e a Arte de Andar de Motocicleta

Recebi este texto do amigo Badá, que ainda conseguiu permissão para colocarmos aqui.

Uma bela analogia feita pelo Sidney Coldibelli, comparando o Aikidô a andar de moto.

Ao Badá e ao Sidney, muito obrigado por dividir aqui conosco.



O Aikidô e a Arte de Andar de Motocicleta

Sidney D. O. Coldibelli




Desde jovem, 3 coisas fazem parte constante de minha vida. Artes Marciais, música e motocicletas. E o mais engraçado é que as 3 entram e saem do meu caminho dentro de uma mesma freqüência. Tive minha primeira banda aos 15 anos e esta minha fase durou uns 7 anos. Fiquei então afastado da música por 25 anos retomando este caminho há 10 anos.

Nas artes marciais foi mais ou menos igual. Iniciei meus treinos de kung fu aos 22 anos ficando nele por aproximadamente 15 anos me afastando por 5 antes de encontrar o Aikido.

A motocicleta entrou na minha vida aos 19 e ficou até os 36 aproximadamente, só voltando recentemente. Mas, afinal, o que este veículo tem e ver com o aikido? Foi uma coisa que comecei a perceber em meu reencontro com ela e o que pretendo relatar nesta tese.



Descobri que, para andar de motocicleta, muitas coisas que aprendi no aikido se mostraram de grande valia para ajudar a aumentar o prazer e a segurança no dia a dia. Vamos ver quais são estas técnicas e quais são os benefícios que elas agregam.

MOKUSÔ

No Aikidô, ao se iniciar ou finalizar cada treino fazemos o MOKUSÔ que é um momento onde o praticante muda seu estado de freqüência para poder centrar-se e se equilibrar para a aula ou para continuar com sua vida fora do tatame.

Ao iniciarmos o treino, viemos de fora do tatame da nossa vida diária com nossos grilos e stresses do dia a dia e que, deixarmos que eles se transfiram para o treino podendo causar malefícios tanto a nós quanto aos nossos parceiros de treino. Ao fazermos o MOKUSÔ é como se colocarmos uma pausa entre nosso dia atribulado para que possamos iniciar uma nova atividade sem as influências malévolas da anterior. Ao finalizar o treino fazemos o MOKUSÔ para que nosso corpo possa assimilar os benefícios adquiridos durante o treino para que estes se interiorizem e se cristalizem em nosso espírito.

Na motocicleta não é diferente. Ao sairmos quer para um passeio, para o trabalho ou para uma viagem, não podemos simplesmente subir em cima dela e sairmos tendo nosso espírito perturbado por qualquer espécie de acontecimento. Todo um ritual deve ser cumprido para podermos ter a certeza de estarmos prontos para enfrentarmos os riscos e as possibilidades que um passeio de moto possibilita. Estar convenientemente trajado, colocar o capacete, verificar o fecho, luvas, entre outras coisas são providências rotineiras que o motociclista deve fazer, como uma espécie de MOKUSÔ antes de colocar o veículo em movimento. Este é um ritual que o motociclista deve fazer. Se você não faz isto, você corre o risco de colocar sua vida em perigo porque não se preparou psicologicamente.

MAHAI, DEHAI e ZANCHIN

No Aikidô, estes três conceitos estão sempre presentes. MAHAI é distância de combate. No treino buscamos entender como isto funciona e como podemos usar este conceito para nos proteger ou agir com uma determinada técnica. Se o adversário invade o seu MAHAI é muito complicado tirá-lo de lá. O mais seguro é evitar que ele entre mantendo uma atitude de atenção (ZANCHIN) para que o inimigo não tenha tempo de realizar um ataque que o pegue desatento.

Ao andar de motocicleta devemos manter toda a atenção (ZANCHIN) para manter os outros carros, e motos, possam invadir seu MAHAI e, com isso, causar algum acidente. Afinal, quando você está em uma moto, você é o seu próprio parachoques. Em uma cidade com um trânsito complicado como o de São Paulo, andar de motocicleta sem estar totalmente ligado (ZANCHIN), é uma tent ativa de suicídio.

Outra coisa que o Aikido nos ensina e que, no caso de andar de moto, é de excelente valia é o DEAI que poderia ser traduzido como “O MOMENTO DO ENCONTRO”.

No Aikido, O MOMENTO DO ENCONTRO é quando o NAGUE, aquele que recebe o golpe, faz o contato com o UKE, que é aquele que desfere o golpe. Neste exato momento, NAGUE e UKE devem se unir para que a técnica advinda desta união possa ser a mais harmoniosa possível, sem choques e nem ¨brechas¨ que permitam que eles se desconectem e não aconteça o MUSSUBI.

Ao andarmos de moto devemos estar também atentos ao DEAI. Por ser um veículo versátil podemos nos esquivar por entre o trânsito e ganharmos um precioso tempo. Mas, esta vantagem pode se tornar um perigo muito grande, pois, se o piloto não se ¨conecta¨ adequadamente com o veículo (DEAI) as chances de termos o domínio da situação e de respondermos prontamente a um movimento inesperado de um outro veículo que circula na mesma via diminuem e, consequen temente, as possibilidades de acidentes aumentam.

Ao respeitarmos o DEAI das coisas, vamos aproveitar todas as vantagens da mobilidade do veículo sem colocar nossa integridade em jogo. Por isso, nosso ZANCHIN deve estar o tempo todo ligado para que possamos perceber o tempo certo de fazer as coisas, como uma ultrapassagem, por exemplo.

RELAXAMENTO

Uma das coisas que o SENSEI insiste em todas as oportunidades que se dirige a nós, oficialmente ou não, é sobre manter-se relaxado. Principalmente os ombros e os braços. Sem este relaxamento a realização das técnicas fica muito prejudicada, pois o nosso centro passa a não agir sobre a técnica e passamos a utilizar somente os braços para executá-las. Todo o sistema de treino é montado para que possamos atingir um estado de relaxamento adequado para que nossos movimentos possam ser fluidos e eficazes.

Ao pilotar uma motocicleta o mesmo princípio se aplica. Pilotar com os ombros tensos e os braços duros é um convite a um acid ente. Atingir um estado de relaxamento principalmente dos braços é fundamental para que possamos aproveitar ao máximo o prazer de pilotar, pois caso contrário, além dos riscos de acidente, o cansaço vai se abater facilmente e não poder curtir adequadamente o passeio.

MUSSUBI

Este é um dos conceitos mais importantes do Aikidô. MUSSIBI pode ser entendido como ligação ou junção. Para que as técnicas possam ser feitas com um mínimo de esforço e um máximo de eficiência, o conceito de MUSSUBI deve estar presente em todas elas. No caso de um JIU WASA, onde o Naguê enfrenta mais de um Ukê ao mesmo tempo, fazer MUSSUBI com vários adversários fica muito mais difícil.

Para se pilotar com segurança e tranquilidade é absolutamente imprescindível que o motociclista faça MUSSUBI com a sua motocicleta. Ele e a máquina devem ser um só, pois apenas desta forma a pilotagem se torna absolutamente segura e confortável. No caso de estar carregando um garupa, a necessidade de MUSSUBI se f az ainda mais necessário. Os três devem estar absolutamente integrados e agir como se fossem um só para que o passeio ou a viagem possa ser feita sem riscos.

CENTRO

O SENSEI uma vez declarou “Eu sou o Centro do Universo”. Esta afirmação, em uma primeira instância parece ser extremamente prepotente para os menos desavisados. Mas, o que na verdade O SENSEI queria dizer é que tudo emana do centro e volta para ele. Assim como a respiração deve emanar do centro e voltar para ele, todo movimento do Aikido deve sair do centro e voltar para ele. Os braços, as pernas, enfim, o resto do corpo, serve para transmitir a força que sai do centro até o oponente. Desta forma a técnica será forte e consistente.

Na pilotagem da motocicleta o mesmo acontece. Pequenos deslocamentos do centro do piloto sobre a motocicleta faz com que ela mude de direção rapidamente. Controlar a motocicleta com o centro é a garantia de ter um veículo com resposta rápida e facilmente dominado.

EMPUNHADURA

No treino de Aikido utilizamos o Jô e o Bokken. São armas que nos ajudam a localizar e trabalhar nosso centro e a nossa linha central. A correta empunhadura destas armas utilizando os dedos polegar, anular e mínimo, ao invés da empunhadura habitual com o anular, médio e polegar, nos ajuda a manusear melhor as armas e aumentar a eficiência no combate.

Na motocicleta acontece o mesmo. A mão direita manuseia o acelerador da mesma forma que a empunhadura da espada, até porque é necessário que se deixem livres o indicador e o médio para o acionamento do freio dianteiro que também é responsabilidade da mão direito. A mão esquerda é responsável por acionar a embreagem para a troca de marchas da moto. Por isso os mesmos dedos, indicador e médio, também devem ficar livres para esta tarefa o que significa que o trabalho de segurar o guidão com a mão esquerda fica com os dedos mínimo, anula e polegar exatamente como nas armas.

O benefício direto desta postura está no relaxam ento dos braços mencionado anteriormente, pois, quando aprendemos a segurar as armas desta forma, automaticamente tendemos a abaixar nossos cotovelos e, com isso, torná-los mais integrados ao nosso centro. Com isso nossa postura se torna mais ereta o que facilita a pilotagem tanto do ponto de vista do conforto como da dirigibilidade.

UKEMIS

Uma das coisas mais importantes que aprendemos no Aikido são os UKEMIS (quedas). Desde a primeira aula os “faixas brancas” já são convidados a conhecer o tatame com quedas para trás (Ushiro Ukemi). Apesar de eu pessoalmente não achar a tradução de UKEMI para queda apropriado uma vez que, na cultura ocidental queda esteja relacionada com derrota, com sofrimento, com dor, os UKEMIS são, na realidade uma forma de recondicionarmos nosso corpo para podermos escapar de torções e outras técnicas que, se nós não adaptarmos nosso corpo de forma correta, poderiam nos trazer fortes danos a nossas articulações. Além de importantes, os UKEMIS sã o doloridos, principalmente no começo do treino quando nosso corpo e, principalmente nossa mente, ainda não entendeu que um UKEMI não significa o fim, mas uma chance de recomeço.

No pilotar de uma moto, os UKEMIS se revelaram se extremamente úteis em caso de acidente. No final de 2010, estava saindo de viagem quando outro motociclista, ou deveria classificá-lo como motoqueiro, para não usar um outro tipo de adjetivo, ao tentar fazer uma ultrapassagem forçada, sem respeitar o MAHAI e o DEHAI apropriado para a situação, caiu em minha frente e eu não tive como parar a moto a tempo. O resultado foi que a minha moto também caiu por cima da dele e, no momento em que isto aconteceu, a postura que eu citei anteriormente me levou, automaticamente, para um arco perfeito onde um MAE UKEMI (rolamento para frente) pode ser feito minimizando o efeito do acidente. Isto mostra o quando condicionamento do Aikidô e pode te ajudar a enfrentar um problema inesperado no dia a dia. E eu espero ter apenas este caso para contar nos próximos anos.

PERCEPÇÃO E LIMITES

O 14º. Mandamento do Aikido diz: “Conscientizar-se de que a prática do AIKIDO tem por princípio o auto conhecimento.” Durante todos os anos de prática, o aikidoista aprende, até mesmo de forma inconsciente a ampliar a sua percepção do mundo a ponto de poder antever situações na qual enfrentar poderia significar perdas irreparáveis. Da mesma forma começa a ter plena consciência de quem é e do que é ou não capaz de fazer. E, em muitos casos atuar de maneira consciente para poder modificar seu comportamento. Isto quer dizer que nos tornamos capazes de conhecer nossos limites e, em muitos casos, superá-los e, quando isto não é tão fácil assim, conviver com eles de forma harmônica.

Na pilotagem da moto, conhecer o seu limite e o limite da máquina e ter a plena percepção do que pode ou não pode ser feito em uma determinada circunstância será fator determinante para que o motociclista possa preservar- se de qualquer acidente, grave ou não. Diariamente 2 motociclistas morrem em São Paulo. Na sua grande maioria por não perceber os limites impostos pelas circunstâncias e desafiam-nos sem ter a correta noção de MAHAI e DEHAI. E os resultados podem ser catastróficos, pois em um acidente de motocicleta, morrer é, em alguns casos, o menor dos males.

CONFIANÇA

O Aikidoista, na medida em que avança na prática, vai se tornando mais confiante e mais poderoso em suas técnicas. E é aí que mora o perigo. Ao atingir este estado, o ego pode começar a tomar conta da situação fazendo que com o praticante se torne muito perigoso para si e para os companheiros de treino. O tempo todo ele passa desafiando os seus limites e os limites dos outros não se respeitando e ao próximo. Com isso treinar com ele passa a ser um motivo de sofrimento e não de prazer.

Na motocicleta acontece o mesmo. Na medida em que você vai se acostumando com a moto, sua confiança aumenta a tendência de desrespe itar seus limites aumenta na mesma proporção. E as consequências , como no Aikidô podem ser muito dolorosas.

ATENÇÃO PARA OS DETALHES

Um velho amigo me disse uma frase um dia “Deus está em toda parte, mas o demônio se esconde nos detalhes”. E esta me parece ser uma verdade incontestável. O Aikidô, por ser uma arte marcial de técnicas refinadas que não se utiliza de chutes e socos, obriga o praticante a estar constantemente atento aos mínimos detalhes das técnicas. E cada uma dela é repleta deles. Um deste detalhes que passa despercebido é o suficiente para a técnica não sair de acordo com o planejado. Por isso, o Aikidô é uma arte marcial muito difícil de ser praticada, da forma correta e o progresso, se comparado a outras artes marciais é mais lento.

Ao andar de motocicleta o mesmo acontece. Cada detalhe deve ser considerado porque, quando se está andando, não há tempo para corrigir erros. Um barulhinho diferente. Uma pedra no caminho, um buraco, um cachorro que, l á na frente, passeia despreocupadamente pela calçada e que, de uma hora para outra, resolve atravessar a rua, enfim, tudo precisa ser observado para que o piloto, e seu eventual acompanhante possam desfrutar das delícias de passear de moto com segurança.


KANAGARÁ TAMASHII HAEMASSE

Este talvez seja o único ponto em que o Aikido e a motocicleta divergem frontalmente. KANAGARÁ TAMASHII HAEMASSE poderia ser traduzido como “Ao seguir as leis do Universo a cada dia seremos mais felizes.” A motocicleta é, por si só, um desafio às leis do universo. Uma das leis diz que para se definir um plano estável são necessários três pontos. A moto se apóia em dois.

Portanto, uma motocicleta foi feita para cair. Andar sobre ela é, constantemente, desafiar esta lei do universo, razão pela qual tudo o que feito escrito até agora tem mais e mais validade.

A todos, muito obrigado.

São Paulo, 02 de Julho de 2011.

6 comentários:

Sidney Coldibelli disse...

Obrigado pela oportunidade de compartihar um pouco do que aprendi na vida.

Sidney Coldibelli

Lord Of Motors disse...

Sidney,

obrigado a você. O texto além de muito bem escrito é uma analogia muito interessante, quem tem alguma experiência com artes marciais entende e compactua completamente com a opinião.

Tirando a parte de "moto foi feita pra cair". Nas leis do Universo deve ter alguma coisa prevendo motocicletas...

L.

João disse...

Excelente texto.

O Aikido me ensinou a ver as coisas de outro prisma. Traçar paralelos é sempre interessante pois vemos que o Aikido é aplicável a tudo.

Abs.

Anônimo disse...

Lord, em primeiro lugar, gostaria de dizer: "domo arigato gosaimashita"!

So gostaria de dizer que há os tres pontos de equilibrio quando andamos de motocicleta também:

Os dois primeiros são as rodas da motocicleta, como vc disse. No entanto, o terceiro ponto de equilibrio é o proprio piloto, que deve estar em em equilibrio interno para se unir a moto e formar os tres pontos de equilibrio. Dessa forma, temos a uniao do homem com a maquina em equilibrio e harmonia.

Abraços e mais uma vez, obrigado!
Renato

Anônimo disse...

Lord, sempre fui fa deste blog mas este texto considero excepcional.

Jhonn Doe disse...

Antes de mais nada Parabens ao LORD pelo excelente blog.
Queria pedir a você, ao Badá e ao Sidney, autorização para postar o texto no forum que faço parte chamado TOR BRASIL (http://www.torbrasil.com.br) sou motociclista e ex praticante de artes marciais (ainda volto, rs)para que todos conheçam essa analogia perfeita.

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