quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Sobre restauração de veículos antigos.

No Salão Bike Show fui abordado por 2 caras (separadamente) que vieram me consultar sobre restaurar motos antigas. Nos dois casos, a primeira pergunta que fiz foi "Qual o objetivo da restauração?"

Nos dois casos, eles pretendiam restaurar as motos para vendê-las. Baseado em minhas próprias experiências, dei a eles minha opinião.

Ontem, viajando nas postagens mais antigas aqui do Lom achei esse texto, que embasa ainda mais a opinião que dei aos caras.

O texto é longo, mas pra quem pretende restaurar (carros, motos, barcos) é fundamental. Se for seu caso, perca 10 minutinhos lendo.

L.

Foto roubada sem autorização de 
Jurassic Machines
http://hdbobber.blogspot.com.br/



O que você deveria saber sobre restauração de carros antigos
por Land Yachts

Esse artigo foi escrito para uma revista da área onde vive Land Yachts, o autor, em razão da constatação, desde que abriu as portas de sua oficina ao público, há cinco anos, que a maioria das pessoas sabe muito pouco a respeito de restauração de carros antigos. 
Para os clientes habituais de restauração boa parte desse artigo não apresenta novidades mas, mesmo assim, sua leitura será interessante. Para aqueles que nunca tenham se envolvido com um trabalho profissional de restauração, mesmo que já tenham realizado algum como amador, por conta própria, a leitura desse artigo será muito proveitosa. 
Qualquer semelhança entre personalidades descritas nesse artigo com pessoas vivas ou mortas é puramente intencional. Os nomes foram modificados para proteger os responsáveis.

Examinemos em detalhe o que é uma restauração.


No que diz respeito a automóveis a restauração é simplesmente uma desmontagem completa. Se uma peça aparenta estar muito desgastada em comparação com o equipamento originalmente fabricado, recomenda-se que seja:
(1) substituída por uma original nova;
(2) substituída por uma recondicionada, original ou produzida no mercado paralelo;
(3) recondicionada por uma oficina local, ou por uma subcontratada, de modo a recuperar as especificações originais.

Uma parte da restauração consiste em reparos na superfície do veículo. Todo o metal enferrujado deve ser tratado. As partes não afetadas devem ser protegidas contra o futuro surgimento de ferrugem.

Toda a tapeçaria, os tecidos, os arremates e as borrachas de vedação devem ser substituídos. Qualquer acabamento interior aparentando estar velho ou danificado deve também ser substituído.

A preparação e o acabamento do exterior do veículo, empregando modernos sistemas de tratamento, conforme requeridos pelo nível de restauração determinado, devem ser considerados. A tarefa só estará terminada com a substituição de todos os detalhes externos que, pela idade, apresentem desgaste ou estejam danificados.

Uma verdadeira restauração irá reconduzir o veículo às condições tão próximas quanto possível de um novo, considerando que o método original de fabricação não está mais disponível.

Os profissionais reconhecem dois tipos de restauração: a de "exibição" e a de "rua".

A principal diferença entre elas é que a do tipo exibição, algumas vezes chamada de "super-restauração", procura aproximar a recuperação do veículo o máximo possível da perfeição, sem considerar as despesas envolvidas. Uma restauração para exibição deixa o veículo em melhores condições do que as de um novo, recém saído de uma linha de montagem. A restauração do tipo "rua" procura deixar o veículo tão próximo quanto possível das condições em que um novo sai de fábrica. Os veículos restaurados para exibição são normalmente apresentados apenas em poucas e tradicionais exposições, como o "Concours d'Elegance", e nunca são dirigidos nas ruas. Esses carros participam de concursos em que são avaliados por comissões julgadoras, e competem para vencer.

Restaurações do tipo "rua" destinam-se a dar prazer a quem dirige os veículos. Mesmo assim, esses carros não são dirigidos com freqüência.

Os restauradores não gostam de executar "restaurações parciais". Apesar de a razão parecer óbvia, vou tentar explicá-la. Imaginemos que um cidadão chamado Zé dos Anzóis leve o seu "Francia Oblongatta Rabo de Peixe 1962" para a companhia de restauração "ABCD Goldfish" para recuperar as chapas enferrujadas do piso, pintar a carroçaria, e refazer o cromado de pequenas peças de acabamento. Zé não possui recursos para cromar os pára-choques. Ele mesmo planeja executar todos os outros reparos necessários, bem como a completa montagem do veículo. Zé é, há muitos anos, um respeitado colecionador amador de carros antigos que costuma empregar seu tempo livre para concretizar os próprios projetos, e considera-se suficientemente competente para realizar as tarefas não atribuídas à ABCD. Mas, aprofundando a questão, Zé não possui recursos para pagar à ABCD por uma restauração completa. Como ele não trabalha para a ABCD, a empresa não tem qualquer controle sobre a qualidade do seu trabalho. Zé resolve levar seu carro restaurado a uma exposição. Lá, Juca pergunta a ele: "Zé, quem restaurou o seu carro ?" "Ué", responde Zé, "foi a ABCD, é claro!" Em seguida, Juca comenta com Chico: "caramba, eu nunca vou querer que essa ABCD faça nada para mim! Veja só que trabalho vagabundo foi feito no compartimento do motor!" Fim da história!

Há amadores que são muito competentes. Na verdade, tão bons que eu tenho tentado contratá-los! Mas a grande maioria deles simplesmente não possui habilidade, experiência ou equipamento para igualar-se à qualidade dos meus profissionais de meia-idade, cuidadosamente selecionados, que empregam suas vidas adultas trabalhando como restauradores de automóveis.

Meus clientes de restauração aqui em Tidewater, refletindo a natureza do mercado local, incluem-se em uma destas categorias: 95% buscam reparos previamente orçados; 4% desejam restaurações do tipo "rua"; e 1% contrata restauração para exibições. Por que tão pouca restauração ? A razão é, simplesmente, custo.

Vamos explorar esse assunto. A maior parte de meus clientes aqui na área é principiante. Isso significa que quando me trazem seus projetos é normalmente a primeira vez que contratam um trabalho profissional de restauração. Até então só estavam familiarizados com trabalhos de pintura e funilaria realizados por oficinas que reparam danos ocasionados por colisões. A filosofia da indústria de reparos de colisões é realizar o trabalho rapidamente e da forma mais barata! Isso se deve, principalmente, ao fato de que o típico cliente de reparos por colisão precisa do seu meio de transporte, o que requer um período curto para o conserto.

O reparo é normalmente pago por uma grande companhia de seguros, cuja principal preocupação é controlar os custos. As oficinas que realizam esses consertos utilizam um sistema de orçamento (normalmente fornecido pelas próprias seguradoras) que se aproxima bastante do custo real do serviço. Assim, o custo final raramente difere do orçamento original.

Elas podem proceder desse modo porque a média de idade dos veículos com os quais trabalham está na faixa dos cinco anos. Há farto suprimento de peças de reposição, as técnicas de reparo são simples e as possíveis variações (a maioria decorrente de corrosão ou má qualidade de reparos anteriores) são, na melhor hipótese, inexistentes, ou, na pior, bem previsíveis.

É, meu amigo, muitas características dos veículos são melhor elaboradas atualmente! As estratégias de diagnóstico e de reparo são mais fáceis, requerendo menor número de técnicos habilitados e obtendo resultados mais baratos (até considerando-se a inflação). Mesmo quando há "reajustes" no orçamento original, o custo adicional não atinge o bolso do cliente, pois a oficina negociará diretamente com a companhia de seguros.

A média de idade dos projetos que chegam à minha oficina é 40 anos. Todos os iniciantes que vêm até mim estão geralmente infectados pela crença de que eu posso gastar alguns minutos observando seus veículos antigos, com idade superior a 40 anos, e apresentar um orçamento, como os das oficinas que reparam colisões, ou, em outras palavras, determinar um preço!

Eu posso dar um preço para você agora mesmo; não preciso nem me levantar da cadeira, não necessito sequer olhar para o seu carro e, na realidade, nem me importa saber de que tipo ele é! 60 mil dólares! É claro que se você deseja obter um orçamento razoavelmente preciso para a restauração eu o fornecerei assim que tenhamos desmontado completamente seu carro. Essa não é, certamente, uma operação insignificante, pois sozinha pode custar mais de mil dólares! A partir daí há sempre o risco de descobrirmos que o custo da restauração, ou simplesmente o reparo do veículo, ultrapassa largamente qualquer expectativa por parte do proprietário; assim, nesse ponto, o dono do carro terá que interromper seu projeto (pelo menos conosco) depois de haver gastado um bom dinheiro!

Quanto deveria custar uma restauração?
Bem, primeiro vamos trocar idéias a respeito de alguns mitos sobre esse assunto.

Mito nº 1 :
"Ei, eu estou pensando em comprar esse carro por (um valor X), contratar você para restaurá-lo, depois eu vou vendê-lo por (um valor Y) e ter um bom lucro!" Além de destacar a bobagem contida no próprio mérito dessa idéia, eu vou derrubá-la com um simples argumento: se fosse possível a alguém comprar um carro e, após pagar-me para restaurá-lo, ainda conseguir vendê-lo com lucro, então eu mesmo iria comprar esse carro, restaurá-lo por minha própria conta, e vendê-lo para obter esse lucro! Na verdade, se isso fosse uma rotina possível, eu nunca mais precisaria lidar com clientes!

Eu conheço um restaurador que contratou dois militares da reserva para dirigir pelo País comprando carros antigos encontrados em terrenos baldios e vilarejos (nunca pagando mais de 500 dólares) e enviá-los até sua oficina. Ele então executa restaurações rápidas, do tipo "quebra-galho", e manda os carros para leilões. De vez em quando, utilizando nomes diferentes, ele obtém lucro. Mas ainda trabalha bastante com clientes! Eu creio que ele faz esse tipo de venda principalmente para manter seus numerosos funcionários, que ganham salário mínimo, ocupados durante os períodos de pouca demanda.

Nos anos 80, quando os jovens executivos de Wall Street compravam Jaguar Tipo "E" por 70.000 dólares, os restauradores recuperavam verdadeiras carcaças enferrujadas encontradas em "ferros-velhos" e obtinham grandes lucros! Para vocês que estiveram desatentos durante a última década esse mercado já despencou, e agora eu poderia fazer carreira apenas restaurando novamente as carcaças que foram recuperadas naquele período!

Mito nº 2 : Meu carro, após restaurado, vale 12.000 dólares (de acordo com o "Guia de Preços para Carros Antigos"), assim, não poderá custar mais de 12.000 dólares para restaurá-lo!
O valor de mercado para carros clássicos, antigos, relíquias, ou originais impecáveis é afetado por diversos fatores. Oferta e procura, raridade de estilo, qualidade da fabricação original, certificado de autenticidade de algum órgão tradicional (como a Associação Americana de Carros Antigos), as fases da lua, etc. Quase tudo, menos o custo real da restauração.

Quanto deveria custar uma restauração ou um reparo?
Vamos começar com uma caminhada por uma aula de História. Em 1971 um Lincoln Continental Mark IV custava à Ford 960 dólares em mão de obra e peças para sua fabricação. O carro era vendido ao consumidor por 12.000 dólares; 2.000 eram o lucro do revendedor; 2.000 eram o lucro da fábrica; 2.000 compunham o custo administrativo; 2.000 representavam despesas de serviço da empresa; 2.000 eram gastos com anúncios e 1.000 eram gastos com seguro de responsabilidade civil do produto. Surpreendentemente (ou ironicamente) o custo específico da fabricação era o item menos dispendioso. O carro permanecia em uma linha de montagem por aproximadamente sete horas, e mais de 60 pessoas (e naqueles dias apenas três robôs) trabalhavam nele.

Presumindo que durante aquele período de sete horas o veículo fosse fisicamente manipulado em apenas metade do tempo, uma simples multiplicação nos mostra que eram empregados 210 homens/hora em sua montagem. As peças necessárias para a montagem do carro eram fabricadas ou adquiridas pela Ford em quantidades superiores a 10.000, talvez 100.000! Já ouviram falar em desconto para compras por atacado?

Agora vamos saltar 25 anos no futuro. Eu escolhi esse número porque muitas pessoas têm a noção errada de que um veículo se torna automaticamente um antigo "valioso" aos 25 anos. Lamento desapontá-los! Provoquem-me o suficiente e eu derrubarei cada conceito que vocês tenham adquirido a respeito! Um Lincoln Continental Mark IV é vendido atualmente ao consumidor por 42.000 dólares.

Pelo menos uma década de hiperinflação (nos Estados Unidos de 7 a 8%) ajudou a expandir os custos de fabricação de 960 para além de 4.000 dólares! Você quer que eu restaure o seu Lincoln 1971, então vamos examinar as condições desse trabalho. Eu não possuo uma linha de montagem; nenhum restaurador tem. Caso você encontre um que tenha, por favor me avise para eu fechar minha oficina, pois não terei meios de competir com ele! A realidade é que nós temos que fazer o trabalho à moda antiga, manualmente, com equipes reduzidas, como a Rolls Royce costumava fazer. Primeiro temos de desmontar o veículo, algo que a Ford não tinha que fazer. Você gostaria que eu utilizasse uma ferramenta pneumática para acelerar o serviço? Êpa, acabei de partir um parafuso porque a porca enferrujada estava presa! Agora parece que eu vou ter que levar uma hora batalhando para retirá-lo! Hum, talvez seja melhor eu trabalhar mais lentamente e tentar causar menos danos! Se ao menos eu pudesse fazer como o pessoal que repara colisões que apenas zuum, zuum, zuum, desmonta logo!

Mas, digamos que o seu carro é um bom candidato à restauração. Assim eu só terei que repor ou corrigir, digamos, 35% dos componentes. Agora, imagine: exatamente como você faria, eu tenho que comprar no varejo cada uma das peças necessárias à reposição. Eu não estou comprando 10.000 unidades de uma vez; assim, podemos esquecer o desconto!

Os fornecedores tradicionais de peças para carros antigos são os "ferros-velhos", os autônomos ou as pequenas empresas de recondicionamento, e algumas companhias de pequeno porte que mandam fabricar em certa quantidade reproduções de peças originais em países como Taiwan. Essas instituições negociam da mesma forma, diretamente com um cliente ou com um restaurador profissional. Apenas algumas das companhias de pequeno porte oferecem descontos para um volume mínimo de compras anuais. Eu, como um tolo, geralmente transfiro esse desconto para você. Eu tenho aquela noção antiquada de que, em retribuição ao negócio realizado, devo recompensá-lo permitindo que você tenha acesso aos meus descontos. Na realidade, a minha verdadeira intenção é desencorajar você a trazer suas próprias peças esperando que eu dê garantia sobre elas!

Vamos encarar alguns números realistas. Admitamos que você tem um bom candidato à restauração, e eu peço desculpas por mais essa digressão. Eu sei que você está na extremidade da cadeira esperando pelos números. Um bom candidato à restauração seria um veículo que tivesse sido conduzido regularmente por cinco anos, rodado cerca de 80.000 quilômetros e posteriormente fora guardado por vinte anos em uma garagem coberta, rodando pela cidade, digamos, uma vez por mês.

Um veículo com 160.000 quilômetros rodados e conservado ao ar livre por dez anos, mas com boa manutenção, seria considerado pouco menos que um bom candidato, mas não necessariamente mau. Um veículo com apenas 8.000 quilômetros rodados, porém deixado por vinte anos sob um pinheiro, não seria de forma alguma um candidato.(Eu já vi alguns!). Um veículo com 160.000 quilômetros rodados e conservado ao ar livre por dez anos sob uma capa protetora seria, provavelmente, um mau candidato. Êpa, acho que esbarrei em mais um mito! Espero que esses exemplos sejam suficientes para você ter uma orientação.

Um bom candidato à restauração é normalmente um veículo com muito boa manutenção, adequadamente utilizado e conservado, em condições muito melhores do que a média dos veículos da mesma idade. Dentre os 95% de veículos trazidos à minha oficina por clientes locais, para serviços que eu qualificaria como pequenos reparos, nem um seria por mim considerado um "bom" candidato à restauração. Essa é a razão pela qual eles são apenas consertados.

A maioria dos restauradores profissionais dos Estados Unidos está localizada na Flórida ou na Califórnia. Por quê? Por dois motivos: primeiramente, porque os habitantes desse locais têm muito mais poder aquisitivo do que você e eu; mas, especialmente, porque o clima dessas regiões habilita muito bons candidatos à restauração.

Mas, voltemos aos números. Temos constatado que, em média, um bom candidato requer 350homens/hora para ser completamente restaurado. É uma relação muito boa, se compararmos com os 210 homens/hora necessários para a montagem de um Lincoln; especialmente se considerarmos que o tempo de desmontagem está computado nos 350h/h citados. Meu preço básico de restauração é de 30 dólares a hora, passando a 45d/h durante a fase mecânica do trabalho. A média para uma restauração típica fica próxima aos 37 dólares por hora, ou cerca disso. Esse valor está, provavelmente, próximo ao mais baixo cobrado por qualquer oficina de restauração nos Estados Unidos. Eu ouvi falar que há um sujeito no centro da Carolina do Norte que cobra 25 dólares a hora. Também ouvi dizer que ele não vai ao dentista há vinte anos! Fazendo alguns cálculos simples, o custo da mão-de-obra na vizinhança para a restauração de um veículo parece estar próximo dos 12.950 dólares.

Para um típico carro americano de meados dos anos 40 ao final dos anos 60 (com algumas significativas divergências, como os do início dos anos 50) o custo das peças para um bom candidato à restauração, incluindo itens como motor (nós apenas o instalamos), transmissão, e acabamento interior (normalmente subcontratado), fica em, pelo menos, 10.000 dólares. Quanto mais baixa é a qualidade do carro a ser restaurado, mais esses valores crescem. Se o carro é um raro modelo do período mencionado, o custo das peças poderá dobrar. Carros europeus (ingleses e alemães) começam dobrando o preço das peças, e partem daí para cima. Se for um Jaguar tipo "E" já se pode contar com um aumento na mão-de-obra de, pelo menos, 50%. Há maior número de peças de pequeno porte (e pouca oferta) em um desses carros do que em dois outros! Há um profissional em Beverly Hills, Califórnia, que publica anúncios na Hemmings Motor News oferecendo seus serviços de restauração em Jaguar tipo "E" "a partir de 60.000 dólares!"

Embora não aconteça com freqüência, de vez em quando descobrimos que uma determinada peça é confeccionada em um material denominado "desaparecidium". O que fazemos então? Nós a fabricamos, é claro! Se você se sente compelido a perguntar o custo disso, por qualquer outra razão que não seja: (1) você acredita em numerologia oculta e quer usar esse número para examinar seu horóscopo; ou (2) você espera ter um bom palpite de um número aleatório para jogar na loteria, então você não pode assumir essa despesa !

Eis um fato simples e triste: quase todos os veículos fabricados nos Estados Unidos e na Europa entre meados dos anos 40 e final dos anos 60, e que estejam em excelentes condições (porém não restaurados, em meu conceito específico da palavra), estão avaliados entre 25 e 30.000 dólares, a maioria valendo menos de 15.000 dólares. Se observarmos os custos mínimos de restauração apresentados anteriormente vamos concluir que a maioria desses veículos não é economicamente restaurável. Curiosamente, os valores atuais de mercado são cerca de metade do que eram há dez anos. Isso equivale a dizer que a maioria desses veículos é economicamente reparável. Mas, para seu conhecimento, devo alertá-lo sobre a diferença entre um veículo reparado e um restaurado.

Há muitos fatores que afetam o envelhecimento dos veículos. Sim, como nós humanos, submetidos às implacáveis leis da física, os automóveis envelhecem. Alguns desses fatores são a exposição ao oxigênio da atmosfera, causando oxidação (ferrugem) na maioria dos metais; a radiação eletromagnética (luz, particularmente a ultravioleta); a radiação infravermelha (radiação de calor do sol); radiação cósmica (eu não estou brincando); e o ciclo térmico (simples desgaste mecânico decorrente do contato físico entre peças não deformáveis, como mancais, pistões e similares). A simples reposição das peças nitidamente inoperantes e danificadas em um veículo com 40 anos, por exemplo, em nada prolonga a vida das demais peças com 40 anos do mesmo veículo que ainda estejam funcionando na ocasião do reparo. A maioria dessas peças já atingiu ou está próxima de atingir sua vida útil. Se alguém pensa que assim terá o equivalente a um veículo restaurado poderá ser iludido por uma sensação de falsa confiança em poder tratar o veículo como se fosse novo, utilizando-o de forma intensa e vigorosa, apressando a falha dessas peças desgastadas por 40 anos de uso. Você poderia sair de minha oficina após seis meses de intenso (e caro) trabalho de reparos e seu carro enguiçar a caminho de casa, por falha de uma peça que não foi substituída. Eu não posso antecipar o prazo aproximado de falha de uma peça que não desmontei para inspecionar e, depois que eu o fizer, você pode também substituí-la. Eu sou um restaurador, não um mágico!

Houve um caso recente, de um Lincoln Continental 1960, que permaneceu em minha oficina por quase um ano para o que parecia serem reparos de rotina. Nada menos que 13 peças falharam enquanto testávamos o veículo após termos substituído ou reparado peças que não funcionavam.
O aspecto fundamental é o seguinte: se você não deseja suportar o custo de uma verdadeira restauração, então não se iluda pensando que você tem um veículo do qual pode depender como se fora um novo.

Duração de um projeto de restauração

Eu poderia utilizar agora um dos meus argumentos matemáticos como: eu tenho três técnicos, três aprendizes e cerca de trinta projetos em andamento em uma determinada ocasião; assim, 6 (funcionários) vezes 40 (horas por semana) divididos por 30 (projetos) são iguais a 8 homens/hora por carro/por semana. Para uma restauração de 350 horas um simples cálculo atribuiria 44 semanas. Na realidade, uma restauração completa normalmente consome de 75 a 150 semanas, sendo a espera por peças o principal fator de retardo. Mas eu não vou utilizar esse argumento! Eu simplesmente direi que quanto mais um bom vinho tinto francês envelhece, melhor é o seu sabor. Apressar uma restauração nada fará para melhorar sua qualidade e, provavelmente, irá comprometê-la. Uma boa restauração leva o tempo que o restaurador precisa para realizar o trabalho de forma confortável. Eu já atingi o ponto em que se alguém demonstra impaciência antes (aguardando uma estréia), ou durante o processo, eu peço a ele que leve seu veículo para uma outra oficina.

O propósito desse mais que extenso artigo foi o de passar conhecimentos para aqueles que não têm qualquer experiência com a verdadeira restauração e que podem estar trabalhando na ilusão de que reparar um carro antigo é exatamente como reparar um novo; ou o que é pior, pensando que, em virtude de um carro antigo ser mais barato do que um novo, deve ser mais barato consertá-lo!

Tudo o que eu peço a vocês é que tenham um pouco de sensibilidade e de cautela caso ainda tenham o desejo de aparecer na minha oficina após a leitura desse artigo! Quando alguém está em um avião aproximando-se de um aeroporto para aterrissar, recebe um nome em código alfabético para obter informações sobre as condições da área de pouso; daí em diante, basta mencionar esse código quando se comunicar com os controladores.

Se você leu esse artigo e for à minha oficina, simplesmente me diga "tenho a informação ALFA", e eu estarei dispensado de recitar a ladainha acima. Então, poderemos conversar sobre assuntos mais amenos, como resolver o problema da fome no mundo. Você poderá ter vindo para contestar alguma coisa que eu tenha dito aqui. Nesse caso, eu acolherei um vigoroso debate sobre virtualmente qualquer coisa!

Um comentário:

Anônimo disse...

Ótimo texto. Vale a pena a leitura.

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