domingo, 24 de novembro de 2013

Herói da Resistência


Feriado de Zumbi dos Palmares, dia lindíssimo. Depois dos afazeres matinais, por volta das 13hs, resolvo dar um mergulho na praia antes do almoço. Praia lotada, não dedico mais de  30 minutos ao intento.

Na volta pra casa, resolvo parar num restaurante bem popular para matar a fome. Sento sozinho numa das últimas mesas vagas, e espero o demorado filé com fritas. Inevitável ficar observando as pessoas ao redor.

Vem um garotinho com uma garrafa d’água: “Amigos, amigos, água d’igreja. Água orada, olha!” E vem tomando um gole da água.

Um mais velho: “Água orada nada! Deixa o Pastor saber que você ta pecando assim.”
Ao que o pequeno responde: “Água orada sim, água orada sim!”

Óbvio que na sequência, o mais velho tenta tomar a garrafa do mais novo, que acaba caindo no chão.
“Minha água orada!!! Buáaaaa!!!” e cai no choro o menor.

Intervém a mãe: “Wesley, o que ta havendo?!? Quequesse minino ta chorando de novo?!?”
“Ele derrubou minha água oraaaadaaaauuuaaaaa!!!”

E a mãe come o pequeno num esporro: “Deixa o apóstolo saber que você ta tomando água orada! Minino pecador, você não sabe que não é pra mexer nas coisas de Jisuis!!! Tomar água orada assim sem motivo!!!...”
E tome chamada, enquanto o mais velho olha feliz da vida por ter sacaneado o pequeno, a mãe desanda com mil regras de como deve-se lidar com a tal “água orada”.

Terminada a bronca, pega o menino pelo braço e coloca de castigo sentado numa cadeira, de frente pra parede: “Agora você vai orar aí sozinho pedindo perdão a Jesus pelo seu pecado. Senão vou contar pro apóstolo que você anda tomando água orada, e você sabe o que o apóstolo vai fazer!”

O menino, derrotado, sentado de cabeça baixa parecia mesmo estar compenetrado tentando lembrar o linguajar rebuscado necessário pra conversar com o Jesus da igreja dele.

Passados uns 10 minutos, a mãe resolve alforriar o pequeno Wesley, e deixa ele sair do castigo.

Ainda com carinha de choro, Wesley vai até a garrafa caída no chão, pega, e vai em direção ao banheiro, enchê-la de novo na pia.

E na volta, passando pela minha mesa, me dá um sorriso maroto, que coloca toda aquela cena dantesca em nova perspectiva...

Porque não foi uma análise sociológica ou uma observação quanto aos interessantes meandros da religiosidade evangélica que me fizeram escrever esse texto.

Foi aquele sorriso sacana do Wesley, que no fundo me dizia: “Hay que resistir”...


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