segunda-feira, 14 de julho de 2014

Quantas vozes é preciso calar para que tudo continue como está?




"Eu me lembro bem quando o significado das palavras começou a mudar. Quando aquele evento mundial repleto de corrupção e injustiças trouxe à tona a indignação do povo brasileiro; quando as ruas se encheram de vozes a favor de um país melhor; quando o governo apareceu perante nós nos meios de comunicação, apoiando nossas manifestações pacíficas.

Lembro de como palavras incomuns como “vândalo” e “terrorista” ficaram assustadoras, enquanto outras como “cidadão de bem” e “ordem” tornaram-se poderosas. Eu me lembro de como nossos gritos de “não à violência” se tornaram puro silêncio no vazio do gás lacrimogênio. Lembro quando a cada dia nossa liberdade foi lentamente desaparecendo, quando máscaras viraram crimes, quando pensamentos diferentes e discordantes tornaram-se perigosos, mas eu ainda não compreendo: por que nos odeiam tanto? Por que eles querem silenciar tanto nossas ideias?

Tenho certeza que lembrarei bem de hoje, quando policiais protegidos por palavras como “suspeitos” e “preventivamente” prenderam sonhadores. Que mal essas vozes representam contra tamanha força? Será que nossos professores, advogados e ativistas são mais ameaçadores que ladrões e assassinos? Será que nossa mídia independente é mais perigosa que as mentiras contadas no horário nobre para uma população inteira?

Em meio a prisões políticas, repudiadas pela OAB e pela Anistia Internacional, professores acusados de formação de quadrilha e casas invadidas de forma arbitrária, podemos esquecer nossa busca por paz, cidadania e um país melhor? Podemos calar nossas vozes frente à tamanha tirania? Podemos deixar que rótulos como “black bloc”, “vândalos” e “terroristas” definam nossas lutas? Quando nossa súplica por um país melhor se deixou contaminar por tamanho preconceito? Quantas vozes é preciso calar para que tudo continue como está?"

A.R.



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