segunda-feira, 6 de abril de 2015

Caveira e suas histórias


Repostando as histórias de meu amigo Wilson Caveira.




"Foi em agosto a ultima vez que estive com meu amigo Wilson Caveira. Eu tinha ido comprar uns peixes na praia e ele estava jogando umas flores n'água.

Chamei ele pra vir em casa tomar um "chimorrão", e ele veio. Sentamos na varanda e ficamos contando causos, eu falando dos andamentos da Cheap Choppers, das viradas que a vida dá...

E o Caveira puxou lá do fundo uma das dele:




"Foi em agosto de 87. 

Eu tava numa merda de fazer gosto. Tinha me enrolado com uma mulher daquelas que só querem saber de P.P. (pau e pó). Tava louco por ela, mas acabou a grana, e tomei um tiro de meta no rabo.

No fim fiquei duro que nem um côco, desempregado, e sem ela. 

Tava devendo mais de três meses de aluguel, luz, pensão, umas peças da Shovel, o açougue, até no puteiro meu nome tava sujo.

A parada tava mais preta que o cu do Obama.

Tinha resistido a cair de cabeça na cachaça. Tava "meio" sóbrio desde que a vagabunda tinha vazado. 

Mas tava tristinho. 

Não via como ia sair daquela situação.



Um dia, pra desanuviar, peguei a Shovel, subi ali a serrinha de Itaipuaçú, desci do outro lado, resolvi ir pela litorânea até Saquarema.  

Lembra da litorânea, a estradinha de terra?... Tudo escuro, só o reflexo do mar e o farol da Shovel iluminando um tantinho da estrada. 

Então... a Shovel rebolando toda quando passava na terra fofa... Sei lá o que me deu, tava puto com tudo, cansado da vida, torci o cabo! Acelerei tudo, ela dava uns pipocos, e lá vamos nós, levantando poeira,  a milhão.

Daqui a pouco, entro num pedaço de terra fofa mais fundo, a Shovel sai de frente e BUMBA: Comprei terreno. Voei por cima do guidon, dei uma cambalhota e caí estatelado no chão. A Shovel, tadinha, ainda acelerada quase caindo do barranco pra areia da praia.

Levantei meio grogue, nada demais comigo. Caí chapado na terra fofa, nem senti direito.

Fui levantar a Shovel, e, quando estava ali patinando na areia, numa virada do giudon, vi um reflexo na beira d'água. O farol tinha iluminado alguma coisa. Levantei a menina, botei no descanso, dei uma olhadinha rápida: sem avarias aparentes.

E fui checar o tal brilho na areia.

Aquela área é cheia de lendas, não sei se você sabe. Não sou dessas coisas, mas nego diz que já viu de tudo ali, de Boitatá a ET. E a areia dali é esquisita, você vai andando ela vai chiando nos pés: nhéc, nhéc, nhéc...  

Bom, la vou eu griladão, olhando pra tudo que é lado andando em direção á água, nhéc, nhéc, nhéc. De repente ouço um puta barulhão, um estrondo! 

Dou um pulo do caralho, uma onda vem e me dá um banho! 

Fiquei todo cagado de areia, encharcado, e assustado. Olhei pro lado, a onda tinha jogado, pertinho de mim, umas latas. Não era latinha, não. Umas latas grandes, achei que era lata de tinta...

Peguei uma lata e fiquei pensando que porra era aquela. Puta latona pesada. Sacudi, balancei, não tinha líquido dentro.

Peguei a faca resolvi abrir pra ver qual era. 

E foi eu meter a ponta da faca na lata, primeiro furo, e veio aquele cheiro. Inconfundível. Cannabis Indica. Ô cheirinho bom... Ainda cortei mais um pedaço da tampa, peguei o bagulho com a mão... Impressionante, perfeito...

Quando caiu a ficha que eu tava com uma lata enorme cheia de bagulho, gelei! 
Primeiro porque tinha mais outras latas por ali, e cadê elas! cadê elas!!! 
Segundo porque, será que alguém tinha visto, será alguém era dono, será que os ômi tavam perto... 
E terceiro porque saquei logo que meus dias de penúria estavam acabados!

Eu tinha sido um dos primeiros a encontrar as latas que depois tinham ficado tão famosas...

Bom, fiquei até de manhã procurando lata. Juntei 6. 

Tinha que ver minha cara de manhã. Todo cagado de areia, virado, com a Shovel carregada. Cheguei em casa, tranquei tudo, tomei um banho, e passei 3 dias encarcerado  "averiguando a qualidade do produto". 

Uma semana depois, já tinha me livrado de 5 latas (fiquei só com uma, pra consumo próprio), e tava mon-ta-do na grana. 

Sem a piranha pra dar ideia errada, investi a grana, abri o bar. É bem verdade que depois aquele bar foi minha perdição... Mas isso é outra história.




Por isso que todo fim de Agosto, faça sol ou faça chuva, eu vou colocar minhas flores na água. 

Uma dúzia de rosas pra Iemanjá. 

E uma dúzia pra Solana. 

Solana Star."





Um comentário:

LATÃO disse...

puts, essas histórias do sobre o verão da lata são demais.

parabéns meu velho.

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