segunda-feira, 6 de abril de 2015

Viagem a Ixtlan



“[…] Afundei-me em minha sensação deprimida e não o vi debruçar-se sobre mim até que ele cochichou alguma coisa em meu ouvido. A princípio não entendi e ele repetiu. Disse-me para virar com naturalidade e olhar para uma pedra à minha esquerda. Disse que minha morte estava ali olhando para mim e que, se me virasse quando ele fizesse sinal, eu poderia vê-la. Fez-me sinal com os olhos. Eu me virei e pensei ver um rápido movimento por cima da pedra. Um calafrio me percorreu o corpo, os músculos de meu abdômen se contraíram voluntariamente e eu senti uma sacudidela, um espasmo. Depois de um momento, controlei-me e expliquei a sensação de ter visto a sombra fugaz como uma ilusão de ótica provocada por ter virado a cabeça tão abruptamente. –  A Morte é nossa eterna companheira – falou Dom Juan, com ar muito sério. – Está sempre à nossa esquerda, à distância de um braço. […] – Como é que alguém pode sentir-se tão importante quando sabe que a morte está no seu encalço? – perguntou ele. […] – O que se deve fazer quando se é impaciente – continuou ele – é virar-se para a esquerda e pedir conselhos à sua morte. Você perderá uma quantidade enorme de mesquinhez se sua morte lhe fizer um gesto, ou se a vir de relance, ou se, ao menos, tiver a sensação de que sua companheira está ali vigiando-o. […] A Morte é a única conselheira sábia que possuímos. Toda vez que sentir, como sente sempre, que está tudo errado, e você está prestes a ser aniquilado, vire-se para sua morte e pergunte se é verdade. Ela lhe dirá que você está errado; que nada importa realmente, além do toque dela. Sua morte lhe dirá: “Ainda não o toquei.”

Carlos Castañeda - Viagem a Ixtlan.

Um comentário:

Clint E. disse...

As grandes almas guias que estiveram nesse planeta nos alertaram sobre o problema da morte e da mesquinhez.

Essa aqui disse o seguinte: "Todos nós iremos morrer. Todos nós. Que circo! Isso somente deveria nos fazer amar uns aos outros. Mas não faz. Estamos todos aterrorizados e chapados por trivialidades. Somos consumidos por nada." Charles Bucowski

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