quinta-feira, 30 de junho de 2016

God is in the tails.




Bota mais foto de moto aí, Lord.






Genovese



Enfeitemos...


Lords of Gastown (not related)











Carta de Aldous Huxley a George Orwell.






Huxley recebera uma cópia da obra "1984", escrita por Orwell, no início de sua publicação. Mas por problemas com sua visão debilitada, levou um tempo pra ler. Nesta  carta escrita em outubro de 1949, ele exprime ao autor sua opinião sobre o livro:


"Caro Sr. Orwell,

Foi muito gentil da sua parte solicitar a seus editores que me enviassem uma cópia de sua obra. Ela foi entregue conforme solicitado enquanto eu estava no meio de um trabalho que requeria muita leitura e constantes consultas de referências de minha parte; e devido à minha visão prejudicada, vejo-me na necessidade de racionar meus momentos de leitura. Foi necessário aguardar um longo período para que eu pudesse embarcar em 1984.

Concordando com o que todos os críticos expressaram até o momento, eu não preciso dizer, mais uma vez, o quão excelente e profundamente importante esse livro é. Permita-me então, falar a respeito do assunto que permeia sua obra – a última grande revolução? As primeiras dicas de uma filosofia da última grande revolução – a revolução que vai além do político e do econômico, e que busca a total subversão da psicologia e fisiologia individual – podem ser encontradas nas obras do Marquês de Sade, que se via como um continuador, um consumador, de Robespierre e Babeuf. A filosofia da dominação da minoria em 1984 é de um sadismo que se carrega além de sua conclusão lógica indo além do sexo e, inclusive, o negando. Porém, uma política de botas-na-cara da população se manter indefinidamente parece duvidável. Minha crença pessoal é de que um governo oligarquista irá encontrar maneiras mais fáceis e de menos gastos de continuar no poder e satisfazer sua sede de poder, e que essas maneiras irão se parecer mais como as que descrevi em Admirável Mundo Novo. Ocasionalmente e recentemente, me encontro pesquisando a respeito do magnetísmo e hipnotismo animal, e, em mais de uma ocasião, me encontro surpreso por, em mais de cento e cinquenta anos, o mundo se recusa a reconhecer a seriedade das descobertas feitas por Mesner, Braid, Esdaille e tantos outros.

Em parte devido ao materialismo predominante e em parte devido ao crescente respeito pelos direitos humanos, os filósofos e homens da ciência do século dezenove não estão inclinados a investigar os estranhos fatos da psicologia para homens como políticos, soldados e policiais e aplicá-los no campo do governo. Graças a ignorância involuntária de nossos país, os adventos da última grande revolução foram atrasados por mais cinco ou seis gerações. Outro incidente de sorte foi a inabilidade de Freud a hipnotizar pacientes com sucesso e sua subsequente desistência da prática. Isso atrasou a aplicação do hipnotismo em terapias por mais alguns quarenta anos. Mas agora, psico-análises estão sendo combinadas novamente com hipnotismo; e a hipnose agora foi facilitada através do uso de substâncias que induzem o estado hipnótico e sugestivo aos mais tolerantes pacientes.

Dentro das próximas gerações, acredito que os governantes mundiais irão descobrir que condicionamento infantil e narco-hipnose são mais eficientes, como instrumentos de opressão, do que prisões e centros de tratamento, e que essa busca por poder pode ser satisfeita ao sugestionar a população a amar sua servitude ao invés de espancá-las e chutá-las à obediência. Em outras palavras, eu sinto que o pesadelo de 1984 está destinado a ser modulado ao pesadelo de um mundo que se assemelha ao que eu imaginei em Admirável Mundo Novo. Essa mudança irá ocorrer pela necessidade do governo de um modelo mais eficiente. Ao mesmo tempo, é claro, é possível a existência de uma guerra em larga escala de frentes biológicas e atômicas – que no caso, nos tratam pesadelos de outros e ainda não imaginados tipos.

Agradeço novamente pelo livro

Sinceramente, Aldous Huxley.”




Fonte: Luísa Ferreira in "Homo Literatus"

Empire of Rust

Rick Griffin, o Dave Mann do surf.




terça-feira, 28 de junho de 2016

Circle of Shaman


Enfeitemos...




Se escrever é costurar palavras, isso é alta costura.



"Este é o sensacional texto de abertura que VINICIUS DE MORAES escreveu para a primeira entrevista de CHICO BUARQUE para o jornal O Pasquim.
Meu compadre Chico Buarque ou dos prazeres e vantagens de ficar pobre.
Estou aqui na cobertura do meu bom e velho Braga, o cavaleiro do Atlântico, em gozo de justas férias pascoalinas, ouvindo César Franck na Rádio Ministério da Educação e saboreando um gin-tônica sazonado com uma rodela de limão da horta-suspensa do bravo capitão, por estas horas perlustrando as rotas do Itatiaia em seu Corcel novo, do azul chamado "diplomático".
Só desvio o olhar da Olivetti lettera 32 para conferir o tráfego intenso dos beija-flores voando parado diante das garrafinhas de água açucarada pendentes do toldo do terraço, a qual sugam através do cálice de pequenas margaridas de engodo. Sobre o banco da amurada, fechado em sua gaiola, o canarinho amarelo assiste cabisbaixo duas rolinhas comerem-lhe o alpiste, metendo as cabecinhas entre as grades. Ainda há pouco uma delas entalou-se na operação, e não houve nada a fazer senão sair do meu conforto e ir libertá-la com muito jeito, para que não quebrasse o pescocinho. Ela aquietou-se um minuto em minha mão antes de recobrar vôo e eu juro que me senti, com perdão da modéstia, um verdadeiro São Francisco de Assis.
No fundo do horizonte vejo as ilhas de Ipanema, uma das quais tem um nome que merece asterisco. Seis pisos abaixo de mim dorme ainda, a destilar no sono o Buchanan's da véspera, e certamente sonhando em bloco, esse poço de cultura e conhecimento que se chama Paulo Francis - conforme constatei pelo telefone com sua mucama.
Preferiria muito não estar fazendo nada, mas esses rapazes d'O PASQUIM, o Tarso especialmente, já se vêm tornando maçantes com a insistência para que eu contribua com o lirismo do meu verbo, para o aumento de tiragem deste jornaleco. Como voltei a ficar pobre, e estou precisando pagar minha conta no Antonio's, resolvi aceder. Pediu-me o Tarso, muito aflito, que apresentasse a entrevista de meu também pobre compadre Chico Buarque, vítima atual n. 1 dos chacais do jornalismo e da televisão. Vá lá que seja. O Tarso chegou mesmo a propor-me, de olho súplice, um aumento de salário avant-la-lettre, que eu naturalmente aceitei, considerado o fato de que minha atual situação financeira está mais para fezes que para mousse de chocolate.
Estou considerando seriamente a possibilidade de optar definitivamente pela pobreza, bem como, antecipando-me à era do matriarcado que se anuncia, e à qual o Tarso e eu damos o nosso completo apoio, trocar meu sobrenome pelo da mulher amada e passar a chamar-me, doravante, Vinícius Rezende de Deus, pois filho de Deus sempre fui, e dos mais aquinhoados por sua infinita bondade.
De fato, depois que voltei a ficar pobre, nunca a sua divina mão agiu com maior misericórdia. Por isso que estou, como diria o Caetaninho, sem lenço e sem documento, a divina providência soprou no ouvido dos amigos que me são mais caros que não me deixassem ficar sem teto e alimento, e assim é que essa querida Tônia Carrero, certamente uma das mulheres mais belas (por dentro e por fora) do século, abriu-me as portas do apartamentinho de seu filho Cecil Thiré, onde no momento assisto, e meu velho amigo Rubem Braga escancarou-me a passagem marítima de sua bela cobertura para esses dias de meditação e ócio não remunerado.
Não estou querendo insinuar nada, mas como o tradicional orgulho dos Moraes não me permite, na presente circunstância, aceitar donativos em dinheiro, permito-me sugerir que qualquer gesto de altruísmo seja manifestado em caixas, ou mesmo unidades, de uísque escocês, de preferência com rótulo de importação, e das marcas Buchanan's, Old Rarity, Black Label ou Chivas Regal, que poderão ser enviadas à redação deste, como diria a outro, hebdomadário.
É agora, dá-lhe, Chico!"

Fonte: As Grandes Entrevistas do Pasquim.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

What is success?


Is it DO YOUR THING?





Or JOIN THE REST?








LORD OF MOTORS

8 ANOS NO AR.

SEM JOGAR PRA PLATÉIA.

Shovell-ette




Sine Cycles - Chopper Elétrica.






Heresia ? Visão do Futuro?

Uma Chopper Elétrica pode causar calafrios assustados em alguns. E calafrios excitados pelas possibilidades que nos reserva o futuro em outros.

Apesar da pouca autonomia (55km) e da velocidade final não ser anda demais (120km/h), a opção de motorização demonstra potencial.

Sine Cycles.






















quarta-feira, 22 de junho de 2016

terça-feira, 21 de junho de 2016

Ayrton Senna - por Edgard Mello Filho




Estava na minha sala no autódromo quando o celular tocou. Era o chefe.

"Tudo bem aí?"
"Tudo, chefe, o que manda?"
"Seguinte, preciso ver algumas coisas aí. Preciso dar uma olhada porque o belga (Roland Bruynseraede, o Charlie Whiting da época) vai chiar, vai ter que mexer no Berger e no Mergulho."
"Você vem com o Esquilo e vamos dar uma volta com a Onça."

Onça era um Opalão quatro cilindros, preto, quatro portas. Um coitado. Ele estava caindo de podre e graças ao querido amigo Paulo Taliba consegui pegar o carro para o autódromo num rolo inacreditável entre departamentos. E acredite se quiser: o chefe se divertia muito guiando a Onça.

Uma vez, duas ou três semanas antes do GP do Brasil de 1994, ele me ligou e disse: "Vou aí dar uma repassada nas obras, faz o shakedown do Onça".

O shakedown era colocar 42 libras nos pneus dianteiros e 39 nos traseiros (aliás, as únicas coisas novas do carro, presente dos bons amigos da Pirelli, quatro radiais 185 nos trinques), além de checar o arame da porta dianteira direita para ver se estava firme sem ataques de ferrugem.

Ele ria muito e nos divertíamos, principalmente quando eu, para dar um tempero, imitava o locutor da TV e narrava as voltas contra um imaginário piloto de pequena estatura e nariz enorme, docemente apelidado de "Narizinho".

E um grande urso inglês chamado "Roaaarrr", com suas luvas uma de cada cor, vermelha na mão direita e azul na mão esquerda. Um canhão, rapidíssimo. Daqueles tipos que você acabava até gostando.

A gozação em cima de "Roaarr" é que demorava um pouco para cair a ficha dele. Deixei a Onça pronta, mas aquele dia seria especial.

Ele chegou por volta das 17h20, com uma Perua Audi S2. X-tudo. Turbo, cinco cilindros, jogada no chão, aquelas rodas absurdas. Aquele barulho metálico ardido de motor bravo (as BMWs também têm esse barulho característico de isca, pega).

Sentei no lado direito, passei o cinto e já cutuquei:

"Isso aqui anda ou é para ir à missa?"
"Por quê?"
"Nada, só estou perguntando."

Entramos pelo portão de cima mesmo e viramos à direita, rumo ao "S" com o nome dele. No começo da descida, paramos. Ele ficou olhando para a brita.

Não perdi a viagem:

"Está lembrando do esparramo que o teu parceiro made in USA (Andrettinho) fez na largada do GP desse ano, aqui?"
"Isso acontece", desconversou.

Na saída da segunda perna, ele contou:

"Aqui foi a primeira vez que a luz de pressão de óleo acendeu no final do GP do Brasil. Eu vi de relance e fiquei imaginando se não tinha sido impressão. Me preparei para olhar na outra volta e a tensão aumentou porque eu estava controlando o Damon e o alemão que vinham atrás. Eu estava muito ligado neles porque o Damon usava aquele carro de outro planeta e o alemão tinha aqueles cavalinhos a mais que o meu motor, por estar usando uma série à frente".

Perguntei, seco:

"Não tem jeito de mexer neste contrato da Benetton com a Ford?".

A resposta foi meio desanimadora:

"O Ron está tentando, mas não vai ser fácil, o Flavio (Briatore) está marcando em cima".

Foi a deixa para matar a curiosidade:

"Além da distribuição pneumática, tem mais alguma coisa na usina, não tem?", perguntei.

A confirmação veio, como sempre, discreta:

"É, tem algumas coisinhas".

Emendei para não perder o momento:

"Quantos cavalinhos o motor do alemão tem a mais que o teu?"

Ele, como sempre modesto, respondeu:

"Um pouco".

Cheguei junto, agora é a hora:

"Um pouco quanto? Uns 90 hp?".

Estava difícil tirar informação do homem.

"Não, menos", falou.

Resolvi forçar mais um pouco, já perto do limite:

"70? Fala aí!"

Ele manteve a guarda alta:

"Não sei".

Agora vou cutucar para tirar o cidadão do sério e arriscar o meu pescoço:

"Senhoras e senhores, estamos entrevistando um piloto de F-1 que não sabe quantos cavalos tem o seu motor, é espantoso!"

Foi o tempo de encolher o pescoço e levantar os ombros. O que veio a seguir foi em três idiomas: português, inglês e sou capaz de jurar que alguma coisa em japonês:

"Piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii" (censurado). Ficou piiiiiiiiii da vida.

Senti que poderia ser o momento e mandei uma paralela:

"Não apela, vou chutar 40 a 45 burritos a mais".

Silêncio, deu até para ouvir um pouquinho do CD do Phill Collins. Armou um bico e completou com um muxoxo:

"Hummm, por aí".

Precisei dar uma descontraída no ambiente:

"Respeitável público, além de perder o lugar para o anão na Williams, ainda guia corrida a corrida com 40 cavalitos a menos no motor!"

A seguir, momentos de uma leve baixaria e muita risada. Quando estávamos no final da Descida do Lago, já apontado para a subida do Laranjinha, o chefe veio com mais uma:

"Essa saída do Lago me preocupa, se der uma escapada em pêndulo, com chicotada ao contrário, vai bater feio, precisava dar um jeito de mexer aqui".

Rebati:

"Já pedi para os engenheiros da Emurb darem uma olhada no que é que dá para fazer. Aqui tem um complicômetro, chefia: a confluência dos lagos. A única saída de emergência é colocar o guard-rail mais próximo da pista para não deixar ganhar velocidade na hora que esparramar. O problema, chefe, é a hora que der uma pregada bem caprichada do lado esquerdo. A lâmina vai devolver e o "elemento" vai cruzar a pista de volta para o lado direito. Precisa ver se não pega ninguém, nenhum anu errante no contrapé da biaba".

Ele me deu uma olhada, armou uma risada de canto de boca, e conferiu:

"Elemento, anu errante, contrapé da biaba?"

Devolvi bem curta:

"Chefia, você entendeu, não estica".

Quando chegamos ao cotovelo - ou Bico de Pato -, ele comentou:

"Aqui acendeu de novo a luz da pressão e desta vez eu vi e envelheci. Só me faltava esta, estava no final da prova. Na África do Sul devia ter chovido 15 voltas antes, e aqui, essa?! Ainda bem que o motor, que já tinha dado umas amarradas nas voltas atrás do safety-car, aguentou, já estava uma barra e agora a FISA ainda me penalizando não sei até agora por que. Fiquei um tempão atrás do Erik (Comas, que foi o rei do ventilador no GP, pois arrumou time pênalti para todo mundo) e, quando ele tirou o pé e me mandou passar, os caras me deram o pênalti".

Subimos a Junção e, no final do Café, ele diminuiu. Levou a X-tudo para o lado direito, deu uma provocada para o lado esquerdo e chamou o freio de mão. Currupeio perfeito. Viramos 180º e já estávamos voltando para o Café, iniciando a descida para Junção. Pensei: acho que é agora, vou atiçar.

"Respeitável público, no espetáculo de hoje teremos Don Becon e sua peruazinha", brinquei.

Peruazinha foi a palavra mágica. Cutuquei a fera com vara curtíssima.

"Você vai ver o que isso anda".

Infernizei:

"É bom mesmo, porque os caras da BMW estiveram aqui na semana passada e eu executei uma M3. Achei que anda muito, por isso estou achando isso aqui meio lerdo".

Aí o homem pegou no breu:

"Então vamos ver quanto vira nesta pista ao contrário, você tem idéia?", perguntou.

Pensei comigo:

"Consegui incendiar a fera..."

Completei jogando mais um pouco de gasolina:

"Não sei, mas vou abrir o relógio e navegar. Atenção, Siviero para Biasion, Junção à direita, freada forte e quarta, pé embaixo".

A partir deste momento foi só pintura. Adrenalina pura, movimentos precisos, derrapagens controladas, controle absoluto, um conjunto de ordens e contra-ordens que a S2 obedecia docilmente, como que sabendo quem manda, quem é o dono. O carro não ia para onde queria, e sim para onde "ele" queria e colocava. O cheiro de borracha queimada já era forte dentro do habitáculo. Começando a subir o Mergulho, mandei:

"Pironnen para Kankkunen, direita de alta, quarta, pé embaixo".

Quando ia avisar do Bico de Pato, o cotovelo tinha chegado. O problema é que saímos meio atravessados para o lado contrário da curva que era para a esquerda (nós estávamos andando ao contrário). Nos últimos metros antes de passar do ponto e com um improviso espírita, ele "inventou" um pêndulo que, sinceramente, não sei onde ele foi buscar. Absurdo, já todo torto, ele deu uma provocadinha e a barata entrou na dele, ameaçou voltar, eu só ouvi ele dizer: "Te peguei!".

A partir daí foi mais ou menos assim. Na pequena balançada da direita para a esquerda, ele percebeu antes e pendurou nos alicates (ABS). O barulho lá embaixo na frente era característico: "Cram... Cram... Cram..." Tradução: não vai travar. Quando a frente ameaçou entrar, ou melhor, quando a traseira ameaçou soltar, eu só ouvi um "rrrrrrrrrrrrrrrriiiiiippp". Freio de mão puxado, ni qui travou o eixo lá atrás, foi-se a traseira. Quando ela foi, assinou a sentença de execução do carro.

O torpedo como um todo começou a contornar, girando sobre um eixo imaginário bem no meio do carro, fazendo uma meia lua, até chegar perto da metade da entrada do Bico de Pato. Não sei se vocês estão percebendo a magia da manobra. Até aí, ele só vinha trabalhando com forças atuantes, sistema de freio em sequências de derrapagens controladas. Naquela sucessão de manobras, ele já vinha com a mão direita selecionando uma marcha adequada para a saída. A curva que era para ter passado, não passou.

Nós estávamos dentro dela, quase apontados para a saída, com a marcha ideal selecionada e a plataforma motriz em stand-by esperando a vez dela. Chegou. Lembro que bati os olhos no velocímetro estávamos entre 95 e 105 km/h. Aquele era o ponto.

O pé direito dele foi junto com o meu berro: "Dá-lhe gás!". Naquele momento eu relembrei a ira dos deuses enfurecidos e a brutal potência da usina turbocomprimida da casa de Ingolstadt. Absurdo, absurdo, eu não conseguia definir se era castigo do céu ou coice de mula: com as costas coladas no banco, via a S2 seguir uma trajetória muito bem definida a caminho do Pinheirinho. Sem deixar cair a peteca, emendei:

"Kivimavi para Allen, terceira marcha cravado sem tirar o pé".

Mas sempre tem um mas. Quando ele apontou puxando para a direita, o foguete empurrou um pouquinho à frente, ameaçando alargar a trajetória. Junto com a tentativa de reação, ele imediatamente telegrafou o acelerador, fazendo a traseira escorregar e ficar mais ou menos a uns 15º apontada para o lado de dentro da curva. Era tudo o que ele queria para chamar potência no acelerador. Fizemos o Pinheirinho e o "S" (antigo) em dois pêndulos. Quando chegamos perto da zebra saindo do "S" e a caminho do Laranjinha (só relembrando que estamos andando ao contrário na pista), comentei:

"Nossa o que é no chão esse torpedo! O que fala essa usina e uma estupidez!".

Ele completou

"Você vai ver nas de alta".

Ao ouvir aquilo fiz uma reflexão:

"Senhor, vou testemunhar a verdade, vou conhecer de perto o toque divino de um dos eleitos".

O motor urrando, o turbo descarregando, a velocidade crescendo, o Laranjinha, a Subida do Lago velocíssima com freada forte para a segunda perna na entrada da reta a caminho do Berger. Todo o Berger à direita (nós estamos andando ao contrário). O pêndulo veloz direita-esquerda para subir o "S" dele. E mais, a encardida chegada da Junção morro abaixo, quinta a pleno.

Não teria como descrever para vocês, não encontraria palavras. São sensações que você sente quando por exemplo entra num Louvre e descobre nomes como Leonardo da Vinci, Raffaello, Sanzio, Michelangelo, Merisi, Rembrandt, Harmensz. Ou quando ouve Antonio Vivaldi, Franz Schubert, Wolfgang Amadeus Mozart, Ludwig von Beethoven, Johann Sebastian Bach ou mesmo uma "Rhapsody in Blue", de Gershwin. Quando você percebe que está com alguém que faz parte desta lista dos "eleitos", como os citados acima, você se sente especial. Você vive um pequeno momento especial, que você vai levar para o resto da sua vida sem esquecer um detalhe. Poesia ou não, sempre tive a impressão que Deus manda uns caras aqui na Terra para mostrar como Ele faz as coisas.

Mas, Edgard, não dá para contar?

Desculpe, não dá. Eu não tenho como descrever reações, comportamentos, atitudes, antecipações, acima de 200 km/h. Você simplesmente fica olhando sem querer perder nada. É isso. Não dá para contar, é uma coisa sua, como foi de Gagarin, Carpenter, Armstrong e Buz Aldrin. Como você quer ver tudo e não perder nada, alguma coisa você registra. O resto, você absorve. Acho que demos umas oito voltas, depois da terceira virou rotina, conversamos, demos risada, eu xinguei a FISA (para variar)... O cheiro de borracha queimada não parou, nem diminuiu, nós é que acostumamos com ele. Lá pela sexta volta perguntei sobre Donington a resposta você já sabe.

A "peruazinha" S2, um demônio, serve até para ir à feira, mas não leva desaforo para casa. Aquele motor não tem cavalos, tem búfalos enlouquecidos que, quando provocados, fazem desabar uma tormenta. Perto do portão de saída, falei:

"Me deixa aqui, vou andando até a minha sala. Falou, até mais, chefia".

Preocupado, me pediu:

"Qualquer coisa, me liga. Se chegar algum pedido da FISA, me passa por fax".

Para não perder o costume, provoquei na saída:

"Fica frio. Da próxima vez, vem com um A8, tá bom?"

Ele deu uma gargalhada e se perdeu no transito da Teotônio Vilela. Fico imaginando que, para quem pudesse andar com Jim Clark, Ronnie Peterson, Gilles Villeneuve, Jackie Stewart, Nelson Piquet e Michael Schumacher, a sensação deveria ser a mesma. Só sei que, lá pelas tantas, em casa, já na madrugada, olhei para o relógio e vi que o cronômetro ainda estava funcionando. Eu tinha esquecido de parar aquela volta que fiquei de marcar.

Naquele momento, 1h30 da manhã, descobri que oito horas atrás eu tinha vivido uma aventura que ficaria na minha lembrança para o resto dos meus dias. Simplesmente ela se juntava a outras como o meu primeiro DKW de corrida, a minha primeira vitória com o Opala, a vitória nos "1000 Km de Brasília", a vitória nas "12 de Goiânia", a vitória no "Troféu José Carlos Pace" em Brasília, meu primeiro Campeonato Brasileiro de D3, o segundo, meu primeiro vôo num PA18 (todo mundo chamava de teco-teco).

Lembranças, memories, coisas que você não esquece mais. Não sei se isso ajudou, mas por essa e outras experiências eu não tive nenhuma dúvida em ir para a frente das câmeras da TV Manchete naquele maio maldito e ficar berrando, durante oito ou nove horas, que podiam esconder todas as fitas que quisessem, mas ele não tinha errado. Alguma coisa tinha quebrado ou acontecido. Está bem, não discuto, tinha chegado a hora dele, ninguém foge dos desígnios de Deus. Mas ele foi de pé, como um grande campeão. Reduziu três marchas e freou. Quer mais consciência do que isso de uma situação de emergência?

Os números podem falar o que for, pouco me importa.

Eu sou feito de emoção. Nasci, vivi e vou morrer assim. A vida sem adrenalina simplesmente não tem graça.

Jamais vou separar a emoção do coração.

Por isso, onde você estiver:

— ACELERA, AYRTON. ACELERA, CAMPEÃO! "


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