quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

"Centauro" - José Saramago





O cavalo parou. Os cascos sem ferraduras firmaram-se nas pedras redondas e resvaladiças que cobriam o fundo quase seco do rio. O homem afastou com as mãos, cautelosamente, os ramos espinhosos que lhe tapavam a visão para o lado da planície. Amanhecia já. Ao longe, onde as terras subiam, primeiro em suave encosta, como tinha lembrança se eram ali iguais à passagem por onde descera muito ao norte, depois abruptamente rasgadas por um espinhaço basáltico que se erguia em muralha vertical, havia umas casas àquela distância baixíssimas, rasteiras, e umas luzes que pareciam estrelas. Sobre a montanha, que barrava todo o horizonte daquele lado, via-se uma linha luminosa, como se uma pincelada subtil tivesse percorrido os cimos, e, húmida, aos poucos se derramasse pela vertente. Dali viria o sol. O homem largou os ramos com um movimento descuidado e arranhou-se: soltou um ronco inarticulado e levou o dedo à boca para chupar o sangue. O cavalo recuou batendo as patas, varreu com a cauda as ervas altas que absorviam os restos da humidade ainda conservada na margem do rio pelo abrigo que os ramos pendentes faziam, cortina àquela hora negra. O rio estava reduzido ao fio de água que corria na parte mais funda do leito, entre pedras, de longe em longe aberta em charcos onde sobreviviam e ansiavam peixes. Havia no ar uma humidade que prenunciava chuva, tempestade, decerto não nesse dia, mas no outro, ou passados três sóis, ou na próxima lua. Muito lentamente, o céu aclarava. Era tempo de procurar um esconderijo, para descansar e dormir.


O cavalo teve sede. Aproximou-se da corrente de água, que estava como parada sob a chapa da noite, e quando as patas da frente sentiram a frescura líquida, deitou-se no chão, de lado. O homem, com o ombro assente na areia áspera, bebeu longamente, embora não tivesse sede. Por cima do homem e do cavalo, a parte ainda escura do céu rodava devagar, arrastando atrás de si uma luz pálida, apenas por enquanto amarelada, primeiro e, se não conhecido, enganador anúncio do carmim e do vermelho que depois explodiriam por cima da montanha, como em tantas outras montanhas de tão diferentes lugares vira acontecer ou ao rés das planícies. O cavalo e o homem levantaram-se. Em frente estava a espessa barreira das árvores, com defesas de silvados entre os troncos. No alto dos ramos já piavam pássaros. O cavalo atravessou o leito do rio num trote inseguro e quis romper a direito pelo emaranhado vegetal, mas o homem preferia uma passagem mais fácil. Com o tempo, e tivera muito e muito tempo para isso, aprendera os modos de moderar a impaciência animal, algumas vezes opondo-se a ela com uma violência que eclodia e prosseguia toda no seu cérebro, ou porventura num ponto qualquer do corpo onde se entrechocavam as ordens que do mesmo cérebro partiam e os instintos obscuros alimentados talvez entre os flancos, onde a pele era negra; outras vezes cedia, desatento, a pensar noutras coisas, coisas que eram sim deste mundo físico em que estava, mas não deste tempo. O cansaço tornara o cavalo nervoso: a pele estremecia como se quisesse sacudir um tavão frenético e sequioso de sangue, e os movimentos das patas multiplicavam-se desnecessários e ainda mais fatigantes. Seria uma imprudência tentar abrir caminho através do entrelaçado das silvas. Havia demasiadas cicatrizes no pêlo branco do cavalo. Uma delas, muito antiga, traçava na garupa um rasto largo, oblíquo. Quando o sol batia forte, de chapa, ou quando, pelo contrário, o frio arrepanhava e eriçava o pêlo, era como se ali, faixa sensível e desprotegida, assentasse incandescente um fio de espada. Apesar de muito bem saber que nada iria encontrar a não ser uma cicatriz maior do que as outras, o homem, nessas ocasiões, torcia o tronco e olhava para trás, como para o fim do mundo.

PARA LER O TEXTO COMPLETO CLIQUE AQUI


 – José Saramago, conto ‘Centauro’. do livro “Objecto quase”. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.




quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Inteligência Artificial para quem?




Inteligência Artificial para quem?

 Por Hazel Henderson | Tradução: Marianna Braghini



 Os humanos estamos no absurdo estágio em nossa evolução tecnológico em que parece que abandonamos nosso bom senso. Bilhões são gastos por governos, corporações e investidores no treino de algoritmos de computadores (ou seja, programas de computador) na atual e insana corrida para criar as chamadas inteligências “artificiais”, largamente anunciadas como “AI”. Enquanto isso, o treinamento de nossas crianças e seus cérebros (já superiores aos algoritmos de computador) é sub-financiado; as escolas estão dilapidadas, instaladas em condições precárias, frequentemente em áreas poluídas enquanto os professores são mal pagos e precisam de maior respeito. Como nossas prioridades tornaram-se tão enviesadas?

 Na realidade, não há nada de artificial nos algoritmos ou sua inteligência: o termo AI é uma mistificação! O termo que descreve a realidade é “Aprendizado de máquina treinadas por humanos”, na atual e insana luta para treinar estes algoritmos a mimetizar inteligência humana e funcionamento cerebral. Na revista de tecnologia Wired, de outubro de 2018, uma cientista pioneira da computação, Fei-Fei LI, palestra numa audiência do Congresso dos EUA e sublinha esta verdade. Ela diz que “humanos treinam estes algorítmos” e fala a respeito dos erros horrendos que estas máquinas fazem ao “des-identificar” pessoas. Emprega o termo “entra preconceito – sai preconceito” [bias in – bias out], para atualizar o velho ditado de computadores, “entra lixo – sai lixo” [garbage in – garbage out].

 A professora LI descreveu como estamos cedendo nossa autoridade a estes algoritmos para julgar quem é contratado, quem irá para a prisão, quem pode conseguir um empréstimo, uma hipoteca ou boas taxas de seguro — e como estas máquinas codificam nosso comportamento, mudam as regras e nossas vidas. Li está agora de volta à Universidade de Stanford, depois de passar um tempo como especialista em ética na Google, e lançou uma fundação para promover a verdade sobre AI, já que ela própria sente-se responsável por seu papel, ao inventar alguns destes algoritmos. Celebrada como uma pioneira neste campo, LI diz que “Não há nada de artificial na AI. Ela é inspirada por pessoas, é criada por pessoas e — mais importante — ela impacta pessoas”.

 Como as mega empresas de tecnologia invadem nossa cultura e programas, no mundo inteiro, com seus valores de curto-prazismo e obcecados por dinheiro? A lógica parace ser: “mova-se rápido e quebre as coisas”; rompa os atuais sistemas; corra para multiplicar e sacar dinheiro, por meio de uma oferta pública de ações na Bolsa (IPO). Estes valores são discutidos por duas figuras do meio, em detalhes chocantes. Antonio G. Martinez escreveu “Chaos Monkeys” (2016); Emily Chang, da Bloomberg, em “Brotopia” (2018). Estes autores explicam em profundidade como o treinamento destes algoritmos está tão errado, pois subconscientemente mimetiza empreendedores — principalmente homens, misóginos, frequentemente brancos, e suas tecnologias, monopolizados por um viés mercadológico e suas fantasias quase sempre adolescentes e ultra-liberais.

 Descrevo todas estas questões com a tomada, pela Inteligência Artificial, de múltiplos setores econômicos — desde a indústria, transporte, educação, comércio, mídia, lei, medicina, agricultura, aos bancos, agências de seguro e de financiamento. Enquanto muitos destes setores tornaram-se mais eficientes e lucráveis para seus acionistas, minha conclusão em “The Idiocy of Things”, critica a conexão de todos os eletrodomésticos nas chamadas smart homes como nociva e como invasão de privacidade. Apelo para que os humanos reassumam o controle dos computadores e setores da Ciênca da Informação. Estão super-financiados e super-remunerados. Focam-se, muito frequentemente, em eficiência corporativa e redução de custos, dirigidos pelas taxas de lucro exigidas por Wall Street.

 Reivindico uma extensão da legislação inglesa, datada de 1215, que instituiu o “habeas corpus”, afirmando que humanos são donos de seus próprios corpos. Esta extensão deveria abranger a posse de nossos cérebros e toda a informação que geramos, em um atualizado “habeas corpus de informação”. Desde maio de 2018, a legislação europeia ratificou isso com a General Data Protection Regulation (Regulação para Proteção Geral dos Dados, ou GDPR, em inglês). Ela busca assegurar que os indivíduos, ao usar plataformas de redes sociais, ou qualquer outro sistema social, detenham efetivamente a propriedade de todos seus dados pessoais.

 Nesse sentido, algumas leis estão começando a enfrentar o uso desumano de seres humanos, que emprega nossas habilidades, adquiridas com esforço, para treinar algoritmos que depois nos substituem! Em seguida, os treinadores dos algoritmos de computador empregam pessoas desempregadas, forçadas a sobreviver na “economia de bicos”, em sites como o Mechanical Turk e Task Rabbit, e pagam o mínimo para a alimentação de dados que treinam estes algoritmos!

 O cientista Jaron Lanier, em “Ten Arguments for Deleting Your Social Media Accounts Now” [“Dez argumentos para deletar suas contas nas redes sociais agora”], de 2018, mostra como estas redes estão nos manipulando com algoritmos para arquitetar mudanças em nosso comportamento. Chamam nossa atenção com clickbaits e conteúdos que estimulam nossas emoções, medos e raiva, explorando algumas divisões de nossa sociedade para nos manter em seus sites. Isso ajuda a dirigir anúncios de venda, seus gigantescos lucros, em veloz crescimento global. É hora de repensar tudo isso, para além dos lúgubres alarmes feitos por Bill Gates, Elon Musk e o falecido Stephen Hawking. Segundo estes, os algoritmos, que estamos treinando, em breve assumirão o controle e poderão nos ferir e matar, como fez HAL no filme “2001”.

 Por que, então, gastamos montanhas de dinheiro para treinar máquinas enquanto sub-investimos em nossas crianças, professores e escolas? Treinar o cérebro das crianças deve se tornar prioridade! Em vez de treinar máquinas para sequestrar nossa atenção e vender nossos dados pessoais para marketeiros em troca de lucro, deveríamos reorientar nossos fundos e triplicar os esforços para treinar e pagar professores, melhorar escolas e currículos pedagógicos incluindo cursos de responsabilidade civil, justiça, valores comunitários, liberdade mediante “habeas corpus” (mulheres também são donas de seus próprios corpos!) e como ética e confiança são a base de todos os mercados e sociedades.

 Por que fazer esforços muito dispendiosos para aumentar a capacidade de aprendizagem das máquinas? Por que ensinar algoritmos a reconhecer faces humanas, guiar drones assassinos, falsificar imagens de vídeo e modificar ainda mais nosso comportamento e capturar nosso olhar com clickbaits, planejando e distribuindo conteúdo que enraivece e indigna — apronfundando a divisão entre os seres humanos e desmantelando as democracias?

 Precisamos enfrentar as ambições de Big Brother dos novos oligopólios tecnológicos. Como um sábio cientista da NASA nos lembrou em 1965 sobre os valores humanos, seguindo “O Uso Humano dos Seres Humanos” (1950) de Norbert Weiner: “O Humano (sic) é o sistema de computador de menor custo, não-linear, capaz de servir a todos os propósitos; e pode ser produzido em massa, por trabalho não qualificado”.

  É tempo de bom senso!


Fonte: https://outraspalavras.net/

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