segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

LERFÁ MÚ e CELACANTO PROVOCA MAREMOTO






No final da década de 70 começaram a pipocar na zona sul do Rio de Janeiro os primeiros grafites-não-identificados: uma verdadeira batalha nonsense entre os dizeres LERFÁ MÚ e seu “rival” CELACANTO PROVOCA MAREMOTO.

Provocando a curiosidade dos mais atentos, surgiam enigmaticamente nos locais mais improváveis,  emergindo do rescaldo das pichações políticas contra a ditadura que predominavam até então.


Qual seria o verdadeiro significado daquelas palavras? Como teasers, geravam as especulações mais bizarras nas conversas de bar e mais tarde na imprensa, enquanto os dois autores do LERFÁ MÚ e sua trama estavam rolando de rir.

Num clima meio Cheech&Chong, dividiam-se entre a PUC, o estúdio de fotografia e serigrafia no qual eram sócios, os intermináveis ensaios de rock e música blue grass, e os “ataques” clandestinos às paredes da cidade.


Os criadores do LERFÁ MÚ, Guilherme Jardim e Rogério Fornari, eram fotógrafos e músicos – entre outras coisas - e eram assim: divertidíssimos.

Aqueles dizeres, mera corruptela do private joke que invertia sílabas na gíria de iniciados do bairro, dizendo em código lerfá-mú lhobagu para falar “vamo fumá um bagulho?”, vinham sendo ingenuamente repetidos por autoridades e pessoas públicas, disseminando o uso da cannabis sem nenhuma intenção - para a alegria dos grafiteiros e doidões locais.



E insuflado pela crescente notoriedade anônima que aquele simples anagrama assumia, LERFÁ MÚ partiu para a disputa de espaço com o outro grafite, o CELACANTO PROVOCA MAREMOTO.

Quem era Celacanto? Por que ele provoca maremoto? As pessoas passaram a afirmar, principalmente, que “Celacanto” era um código de encontro entre traficantes, enquanto outros diziam que poderiam ser mensagens de extraterrestres.

Na verdade  “Celacanto Provoca Maremoto” é uma frase que surgiu na série japonesa, da década de 1960, National Kid. No episódio “A Revolta dos Seres Abissais” uma das histórias contadas é a do peixe chamado celacanto. Um dos vilões do programa, Dr. Sanada, em determinado momento, diz que o “celacanto provoca maremoto”; sendo essa referência original.

Carlos Alberto Teixeira, o "CELACANTO" original, conta  que, na época, a brincadeira cresceu e ficou famosa a ponto de aparecer em noticiários. O jornalista afirma que a brincadeira surgiu no quadro da sala de aula e daí foi para os tapumes de obra. Depois de criar seu padrão, ele ensinou alguns amigos a fazer a pichação de acordo com o seu estilo – para que esses, então, pudessem reproduzí-la da forma correta.

Um detalhe interessante é sobre a disputa que se seguiu:

CELACANTO vinha provocando LERFÁ-MÚ trocando desafios sob forma de grafite nas paredes dos banheiros masculinos da PUC, onde ele também estudava.

Depois de muitos acordos, travados por escrito e sem se verem, marcaram um misterioso encontro num dos cruzamentos mais barulhentos e movimentados do Rio: esquina da Av. Nossa Senhora com Figueiredo de Magalhães, em plena Copacabana. Para se identificarem mutuamente, ambos portariam um guarda-chuva preto.

Nunca se soube o resultado político deste duelo.

Rogério, anos depois partiu para uma vida alternativa num sítio no interior de Minas. Celacanto, continua provocando por aí.

Mas o que se sabe é que, agentes provocadores que foram, deixaram sua marca. E entraram para a história como Lendas Urbanas do Rio de Janeiro.




FONTES: 
https://imaginetix.blogspot.com/?m=1    
http://www.museudememes.com.br/

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