quarta-feira, 16 de maio de 2012

Espírito da Harley


O que vou falar hoje não tem muito a ver com Performance, aliás, não tem nada a ver, mas tem a ver com o espírito da Harley. Atenção, não estou falando do “espírito Harley Davidson”, e sim do espírito DA Harley Davidson, da moto em si! Da alma dela.

Meio dia; estava me preparando para uma dessas viagens pra longe, essas bem longe, pra passar uns dias. Coloquei a roupa na sacola, amarrei na moto, olhei os pneus: estavam cheios, portanto a revisão da moto estava feita, era só ligar o motor e tchau.

Hoje ia ser estilo Iron Butt, dava pra fazer uns “milzão” tranqüilo, calculando em parar tipo meia noite em alguma cidadezinha e deixar pra matar uns poucos quilômetros no outro dia depois de acordar.

Beleza, tudo pronto, aperto o botão de start e... Uns barulhos estranhos, uma volta de motor mal dada, meio sofrida, uns eternos “milésimos de segundo” de silêncio e de repente pega embalo, dá umas voltas bem dadas e pócotó pócotó pócotó, pegou de boa.

Aí passa pela minha cabeça:

- Porra, motorzão com compressão de nãoseiquantas por um, comando de válvula brabo, cento e zaralho cavalos, não há motor de arranque que não reclame né!

Fora que fazia uns cinco dias que a moto estava parada, a bateria devia estar dormindo tranqüila e acordei ela de sopetão.

Não gastei mais tempo pensando nisso e parti.

Depois de um tempo na estrada, só felicidade, cento e poucos por hora, dia bonito, duas da tarde, não vou ter muito mais luz do Sol mas tá ótimo, de noite refresca um pouco, o motor vai me agradecer, eu sei.

Primeira parada pra abastecer. Encho o tanque, tudo ok. Vou pro bar, não tem cerveja, nem cachaça, nem nada, então aproveito pra almoçar.

- Moça, me dá uma coca e aquele pão de queijo ali, por favor?

Como tranqüilo, pago, saio, fumo meu cigarro e vou lá ligar a moto pra continuar, bateria carregadinha, afinal foram duas horas direto com o motor a 3000rpm ou mais, a batéra deve estar tinindo.

Eu sei que vocês sabem que eu vou dizer que na verdade não estava tinindo: Botão de start e... Mesma história, Crrraaaacccc Vuuuuuummsssshhhh... leve silêncio... voupt voupt voutotó pócótó pócótó pócótó...

Pegou, mas já vi que essa bateria não vai durar muito mais tempo.

Estrada de novo, faço mais duzentão, umas cinco da tarde, paro pra abastecer, mesma história, barulhos, um pouco piores que antes, bateria parece que vai piorando, achei que ia durar uns três meses, mas pelo visto não chega no fim do mês...

Continuo, são seis ou sete da tarde, começo a avistar aquelas nuvens pretas, aquelas de fim da tarde, meia hora depois estou dando de cara naquela piscina vertical, paredão d’água mesmo, vou devagar, rodo um pouco mais e paro pra abastecer novamente, molhado até as bulitas, tiro um Tucunaré da minha bota direita mas nem me importo... Tudo abastecido, dou start e crrrrrraaaaaaccckkk o barulho piora, o motor dá aquela rodada forçada mas não pega embalo, pára de vez, fico olhando, pensando nos quilômetros que já rodei, uns seiscentos, quase metade do caminho, ainda faltam uns setecentos ou oitocentos, não sei ao certo, mas o fato é, voltar agora é besteira, reboque agora é longe demais, vai ficar caro, tenho que voltar no domingo, olho pra motoca e penso quase falando com ela:

- Porra menina, não vai me deixar aqui né,? Chegando lá eu prometo trocar sua “pilha”!

Tento de novo, um pouco de barulho, girada forçada, mas ufa, pega de boa...

Estrada... Chove sem parar, noite, já é meia noite, nada de chegar a cidade alguma, as paradas são mais freqüentes, e o motor vai ficando cada vez mais difícil de pegar, mas pega!

Duas e meia da manhã, lembro que não tinha jantado, e o almoço deixou saudades há tempos, foi aquele pão de queijo!

- Porra, por isso que tô com tanta fome!!!

Só vinha tomando café pra esquentar o corpo desde então, calça jeans molhada de noite é um porre, esfria tudo, mas o café ajuda a esquentar e a ficar ligado, o fato é, vou ter que parar porque senão vai dar merda...

Sabe aquela cidadezinha de beira de estrada?

Duzentos habitantes?

Ninguém na rua?

Dois ou três postes de luz e muitos quebra-molas?

Mas tinha um hotel...

Quer dizer... Hoteeeeeeeeeeeeel HOTEEEEEEEEL não, mas tinha um lugar com cara que dava pra dormir. Melhor que dormir no posto.

Paro lá, toco a campainha, aparece um sujeito com óbvia cara de dormido, mal dormido, olha pra mim, acena com a cabeça como perguntando o que eu quero.

- Boa noite, tem um quarto? Um lugar pra dormir?

- Tá lotado!

... fudeu ...

- Mas não tem nem um quartinho? Casa do cachorro serve! Um colchãozinho, só pra descansar mesmo, vou dormir só umas três horinhas e vou embora (mentira, antes de meio dia não saio dali nem a pau)...

E é quando o cara olha pra fora, vê a motoca e o olho do candango brilha...

- Peraí, vou ver lá dentro...

Volta e:

- Olha, tem um quarto sim, o do fundo do hotel, não é igual aos outros, é menorzinho, mas faço um preço melhor.

- Ta ótimo!!!

- É uma Harley?

- É!

- Cara, sou apaixonado por Harley, agora que tô terminando o hotelzinho aqui vou comprar uma, tenho uma shadow, mas Harley é Harley né? É transmissão por correia né, não tem corrente? O motor faz um barulho diferente né! Porque Harley blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá...

O resto, vocês que tem HD, já sabem, deu papo pra mais de hora... Acabou que o cara me ofereceu até o resto da panela de arroz carreteiro que ele tinha jantado com a esposa. Deu uns dois pratos cheios. Seu Luis virou meu melhor amigo!

E nem vou falar do quarto, ele tinha acabado de construir o hotel, tinha deixado a reforma da recepção pro final, mas o quarto ERA NOVO, com ar condicionado e tudo mais!

Eram quatro da manhã, mas eu estava indo dormir numa boa! Ia poder descansar e só faltavam 300km no outro dia, quer dizer, daqui a pouco.

Dormi.

Acordei onze e meia (tinha colocado o despertador pra tocar as dez), arrumo tudo, monto a moto de novo, vou lá conversar com o Seu Luis, agradecer. Ele descolou umas frutas e um café preto pra mim, mais meia hora de papo, e me despedi.

Botão de Start e... CRAAAAAAAAAAAAACKKKKKK.... Nada...

Botão de Start e... CRAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAACK... Nada...

Botão de Start e... CRRRRRRRRAAAAAAAAAAAAAAAAACKKKKKK....

Nada de ligar...

Agora foi! Tava feio mesmo, motor frio, noite toda parada, não tava com cara que ia ligar, tentar de novo agora era besteira, ia quebrar.

- Ô minha linda, faz isso comigo não... Vai! Por favor! Faltam só trezentinhos!

Deixo a bateria descansar um pouco do abuso.

Aparece Seu Luis, que escutou os barulhos, perguntar se pode ajudar, digo que não e lá se vão mais dez minutos de papo.

Tempo pra bateria recuperar.

Coloco a quinta marcha, dou umas rodadas no motor empurrando a moto engrenada pra “soltar” um pouco, ajuda a “lubrificar”, paro, e tento dar o Start. Os barulhos vocês já ouviram, mas ela pega, mal e porcamente mas pega.

Vou embora, mas ainda tinha que dar uma abastecida, são uns 300km e não chego numa tanqueada só, motor de 1700cc tem essas coisas, 16km/l.

Enfim, pra resumir, deu pra abastecer, fazer os trezentos quilômetros finais, chegar na cidade, encontrar os camaradas, sair pro bar, beber, se divertir e ir pra casa do amigo pra dormir, claro que com alguns starts feios e problemáticos mas chegou, chegou na casa, chegou no final, chegou onde tinha que chegar.

Essa historia toda na verdade foi pra contar que o interessante mesmo é que depois da viagem toda, da chegada e da noitada, já na casa de um irmão, o dono da casa pediu pra tirar a moto da porta e colocar na garagem, pra ir dormir e tal, e a moto simplesmente não pegou, de jeito nenhum, nem barulho feio ela fez, nem rodou, nada, levei empurrando pra garagem, tinha tirado a ultima gota. Tudo. Ela foi até o final, até não dar mais...

Cheguei na garagem, apoiei no descanso, olhei pra ela e esbocei um sorriso de compreensão, aprovador.

Um soldado exemplar, ela tinha uma missão pra cumprir, cumpriu. Jeitão de Silver ou Tornado misturado com um pouco de Rocinante, mas no fim um cavalo fiel. Um cão, um de raça, ou vira-latas, que não te abandona por nada e que vai enfrentar animais muito maiores sem nenhum medo a teu lado. Isso era o que importava, não me deixou na mão, ela foi, foi mesmo estando alvejada, sangrando, com dores, mas chegou, e entregou seu último suspiro só depois de ter chegado onde tinham lhe pedido!

O fato é que já passei por isso com minhas Harleys, inclusive com essa, mais de uma vez: Foi belt que largou seu ultimo dente só no destino, ou um parafuso rachado que só quebrou quando chegou, ou um pneu na lona que só estourou na garagem depois de desligar o motor... Teria diversas outras histórias parecidas com a da “bateria” pra contar. Essa, na verdade, só foi a mais recente...

Enfim, é óbvio que foi uma puta coincidência!

E essa história poderia ter sido contada com qualquer outra moto...

Mas é nessas horas que eu sei que as Harleys tem espírito, e as outras não tem.

Big Chopper de la Frontera
fronterahd@gmail.com

10 comentários:

Filipe Pinhati disse...

Muito bom. Grato.

Vitor disse...

bela história...

Anônimo disse...

Sensacional!!! Sou seu fã nestas estórias que você conta! Leio, aprendo e me divirto muito! Você e o Caveira são "Os Caras"! Valeu!

Cezar - Niterói-RJ

FXD 2009 Preta

Anônimo disse...

Voltou com tudo!
Big,Tava na hora de voltar né?!
O ano começou fazem 5 meses, e você já havia tirado umas férias. rs

Quanto ao texto, só sabe desse espirito guerreiro quem tem uma HD.

Grande abraço!

Renato disse...

Pior é a dificuldade de explicar esse 'sentimento' para quem nunca o viveu.

A impressão de companheira é realmente forte. Difícil separar moto de piloto.

Anônimo disse...

Demorou pq estava dormindo... ia sair antes do meio dia?!?!?!?!?!? Nem com o hotelzinho ardendo em chamas esse cara acorda kkkk

Diesel.

Lixo Morlocks disse...

Costumo dizer que quando o motociclista se dispõe a cair na estrada por alguns dias sozinho e estiver realmente aberto para as experiências que se apresentarem ele terá experiências maravilhosas!!!

Caiam na estrada, sempre vale a pena!!

Iunes disse...

Não acredito em espiritualidades e coisas do gênero, não, mas esse tipo de coisa não é coincidência, nem fudendo!

E vc, com experiência infinitamente maior, pode dizer isso de camarote.

Abraço!

Anselmo A. Peretto disse...

Poucas pessoas entendem. Eu não explico mais, simplesmente digo: "se é difícil de entender, é mais difícil de explicar!".

Anônimo disse...

Texto lindo! Vc traduz muito bem esta paixao que a Harley desperta neh? Parabéns!
Nani

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